O mito de Prometeu

Os mitos, em todas as culturas, cumprem um papel educativo, buscando explicar a origem e o funcionamento de todas as coisas, ao mesmo tempo em que ensinam algumas regrinhas de conduta. Afinal, ninguém quer aborrecer os deuses, mas agradá-los, e saber como eles se enfureciam e o que os motivavam a serem melhores parecia bastante útil!

E a literatura constantemente bebe nessa fonte, seja buscando inspirações, referências ou mesmo recontando as histórias em outros contextos, criando narrativas das mais impressionantes. Assim foi com o clássico Frankenstein, de Mary Shelley, cujo subtítulo, O Prometeu Moderno, já entrega sua inspiração.

Mas, afinal, quem é Prometeu e qual é a sua história?

Prometeu é um titã (uma espécie de proto-deus, uma entidade muito antiga), na mitologia grega, responsável pela criação dos homens e dos animais, junto a seu irmão, Epimeteu. Ao perceberem-se sem recursos para atribuir qualidades específicas aos homens, Prometeu teria roubado o fogo dos deuses e dado àquela que seria a espécie superior de sua criação. Porém, isso enfureceu a Zeus, o deus com maior autoridade sobre os deuses, que o castigou severamente. Prometeu foi, então, acorrentado no alto do monte Cáucaso, onde uma águia viria todos os dias comer seu fígado, que se regeneraria para a repetição do suplício.

Algumas variações – As versões mais conhecidas: Hesíodo e Ésquilo.

Na versão de Hesíodo, Zeus havia se enfurecido com um truque dos homens, elaborado por Prometeu, em relação às oferendas aos deuses e tomou-lhes o fogo, em uma espécie de castigo. O titã, então, roubou o fogo dos deuses e devolveu-o aos homens. Como punição, além de mandar Prometeu para seu martírio, Zeus também enviou Pandora, a primeira mulher, para os homens, com a intenção de que ela fizesse alguma bobagem e castigasse a humanidade (e é daí que nasce o mito da caixa de Pandora, que podemos discutir melhor em outro post). Sim, machismo impera nas culturas antigas!

A versão de Ésquilo se baseia na de Hesíodo, mas é mais favorável ao titã. O autor comenta que, antes de roubar o fogo dos deuses, Prometeu havia garantido a vitória de Zeus contra os outros titãs em uma grande batalha. Portanto, a punição dada pelo deus do Olimpo foi considerada uma traição ao titã. Prometeu também é descrito por Ésquilo como um benfeitor da humanidade, além de seu criador, tendo lhes ensinado a escrita, a medicina, a matemática, entre outros aspectos essenciais da civilização. Ésquilo também não parece se alongar no mito de Pandora, diminuindo um pouco a problemática de gênero da história.

Onde o Frankenstein entra nisso tudo?

Existem algumas interpretações muito interessantes sobre os paralelos entre a história de Mary Shelley e o mito grego, mas vou me deter nos aspectos mais gerais para não correr o risco de dar spoilers a quem ainda não tenha lido a obra. Ao final do post, indicarei alguns trabalhos que andei vendo sobre o clássico.

O protagonista da obra de Mary Shelley, Victor Frankenstein, assemelha-se a Prometeu ao dar a vida a uma nova criatura, uma nova espécie, por assim dizer. Enquanto o titã grego formou os homens com barro, o aspirante a cientista de Shelley cria a partir de pedaços do que um dia foram pessoas. Se Prometeu rouba o fogo dos deuses para dar aos humanos, Frankenstein utiliza-se dos raios para avivar sua criação. Finalmente, se Prometeu desejava tirar a ignorância dos homens, Frankenstein tinha a intenção de acabar com a doença e a morte.

Apesar de estar bastante óbvio pelo subtítulo do livro que Mary Shelley conhecia o mito de Prometeu, é curioso o quanto ela estava familiarizada com a história. O Romantismo é um período em que os mitos, em especial os gregos, foram amplamente revisitados pelos escritores. O pai de Mary Shelley já havia publicado uma versão do mito, escrita por Ovídio. Lord Byron, de quem era amiga, e seu próprio marido, Percy Shelley, compuseram poemas sobre o titã. Esse último, ao que tudo indica, fortemente influenciado pela versão de Ésquilo do mito.

Que outras obras você conhece que utilizam os mitos gregos como base?

Para saber mais:

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