Resenha – Carta a D.

Um dia frio, um bom lugar para ler um livro e eu peguei um bem curtinho porque há muito queria começar e terminar uma leitura no mesmo dia. Foi assim que conheci a história real presente na obra Carta a D., escrita por André Gorz, republicada em uma belíssima edição (com direito a luva e tudo) pela Companhia das Letras em 2018.

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O livro é uma carta aberta que André Gorz escreveu a sua amada Dorine, quando ambos já estavam idosos e ela, debilitada por uma doença degenerativa sem cura. Ao declarar seu amor à esposa, o autor conta toda a história do casal, se desculpa pelos momentos em que não teria descrito com fidelidade sua amada em suas obras, recorda-se das dificuldades, das lutas, dos amigos e de tudo o que a vida real de um casal apaixonado e também envolvido em movimentos políticos pode oferecer.

Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo.

Essa é uma obra rápida e intensa, que pode arrancar suspiros e lágrimas dos corações mais românticos. Afinal, temos um senhor declarando publicamente seu amor por sua esposa e o que pode ser mais fofo que um casal idoso apaixonado? Porém, alguns detalhes na obra me saltaram aos olhos e me deixaram um pouco preocupada e vou compartilhar aqui essas impressões com vocês.

André se mostra emocionalmente dependente da esposa durante toda a sua carta. É claro que o momento é propício para que ele se apresente dessa forma, mas é algo que pode ser percebido nos acontecimentos passados e que se confirma com o final de sua vida. Por diversas vezes, vemos um homem que não teria atingido metade do que conseguiu sem Dorine. Ao mesmo tempo que isso revela a força da mulher ali retratada, evidencia a dependência do homem que se confessa.

É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela.

E talvez por dificuldade em admitir essa situação, André retrata Dorine de forma injusta, segundo ele mesmo conta em sua carta, no livro Le Traîte, onde a descreve como dependente dele, numa inversão de papeis reais, o que me pareceu um sinal daquela conhecida cultura em que o homem não pode ser vulnerável, mas deve ser superior a sua companheira, dominá-la.

Para encerrar as problemáticas que encontrei, há o desfecho da história, posterior à carta, mas que a tornou ainda mais potente: André e Dorine se suicidaram um ano após a publicação de Carta a D., ela por não suportar mais sua doença e ele por não suportar a ideia de viver sem sua esposa. O que muitos consideraram o ato máximo de romantismo dos dois, eu vi com muitas ressalvas. Ninguém sabe o que poderia ter acontecido se eles não tivessem tomado tal atitude e, novamente, André demonstrou a dependência que tinha de sua esposa.

Assim, embora a história dos dois seja realmente muito bonita e a carta seja bastante comovente, fico preocupada com o tipo de impacto que essa história causa nas pessoas. Afinal, quantos já não acreditam que a vida está perdida porque alguém não corresponde a seus sentimentos ou saiu de cena por alguma razão, mesmo com um futuro inteiro e cheio de possibilidades pela frente? Quando passamos por um problema, muitas vezes, não conseguimos ver uma saída. Mas a verdade é que nunca sabemos, de verdade, o que o amanhã trará.

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