Resenha – Cartas para Minha Avó

Ainda nos meus primeiros dias pós-mudança, antes de descobrir a gravidez e enquanto eu ainda tinha um pouco mais de tempo para me dedicar às leituras, a editora Companhia das Letras, com quem o blog teve parceria através do Time de Leitores (2021), lançou Cartas para Minha Avó, esse belíssimo livro de Djamila Ribeiro, escrito, como o título sugere, no formato de cartas para a mãe de sua mãe. (Cópia digital adquirida através da plataforma NetGalley)

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A autora constrói uma espécie de biografia familiar, passando pelas experiências de sua infância e o conhecimento que tem da vivência das mulheres de sua família, em um tom bastante intimista, diria até confessional, como se a autora se transbordasse em confidências.

Antes de mais nada, preciso dizer que minha leitura é a de uma mulher branca, cuja vivência difere completamente da autora e, portanto, que toma conhecimento dessas histórias apenas pelo olhar do outro e por análises mais robustas de especialistas e militantes. Assim, para uma visão mais profunda da obra e dos temas abordados por ela, recomendo a leitura de pessoas que se dedicam a esses temas, além, é claro, da obra em si e das demais publicadas por Djamila Ribeiro.

A partir das cartas, conhecemos episódios muito importantes da vida da autora, em que a convivência familiar, nem sempre fácil, e muitas outras relações humanas são permeadas, muitas vezes, por questões raciais e de gênero. Muitos dos acontecimentos são marcados por dor e preconceitos, e outros tantos, por amor e compreensão.

Em Cartas para Minha Avó, Djamila discute o estereótipo que se criou em nossa sociedade, que sempre coloca a mulher negra em um de dois extremos: a mulher subalternizada ou uma deusa, ambas afastando sua condição de humanidade, dizendo-lhe que ela deve sempre ser forte, nunca chorar ou sentir dor, nunca mostrar-se vulnerável.

É evidente, em cada linha, o abismo entre as realidades branca e negra, em detalhes que muitas vezes passam despercebidos aos nossos olhos privilegiados, como a forma de se comportar diante da polícia, a exclusão em ambientes sociais e acadêmicos, a sensação de não pertencimento reforçada a cada situação racista.

Por conta dessa realidade bruta, Djamila julga que sua criação fora mais enérgica do que seria a de crianças brancas: por um lado, sua família tinha a intenção de prepará-la e aos irmãos para a vida que se apresentaria sem misericórdia e, por outro, porque seus pais também eram frutos dessa violência.

É interessante observar na obra um destaque para a intersecção entre questões raciais e de gênero, demonstrado no livro através do relacionamento entre os pais de Djamila e de seus próprios. A forma como a mulher negra ainda é vista pela sociedade é fora de padrões estéticos “aceitáveis” para ser amada, porém um objeto para saciar os desejos masculinos. Quando em um relacionamento, à mulher estaria destinado o lugar de mãe, esposa e dona de casa, totalmente submissa e objeto de posse do marido.

Claro que existem também as questões intrínsecas aos relacionamentos humanos em geral, como desentendimentos familiares, como o fato de, por ter uma vida de menor escassez que o resto da família, o núcleo de Djamila era alvo das fofocas dos parentes, o que custou muito à sua mãe. Além, é claro, dos relacionamentos dentro do núcleo familiar, que nem sempre são tranquilos. Porém, com uma boa dose de compreensão com o comportamento e a história da família, a relação de Djamila com a mãe mudou bastante, permitindo mesmo que a esta se abrisse mais com sua caçula.

Cartas para Minha Avó pode ser lido em diversas camadas. Aqui, optei por evidenciar a camada das questões raciais, passando brevemente pelas questões de gênero, bandeiras levantadas pela autora. Porém, a camada das relações familiares, especialmente no que se refere à ancestralidade e às mulheres que vieram antes de nós também dá muito o que pensar.

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