Resenha – O Otelo Brasileiro de Machado de Assis

Fazia já algum tempo que eu queria reler Dom Casmurro e estava me preparando para isso quando me deparei com um episódio do podcast 451 MHz sobre Machado de Assis e descobri que havia um livro analisando o grande romance do escritor. Mais: foi essa a primeira vez em que se cogitou que a traição de Capitu só teria existido na cabeça de Bentinho, mesmo tendo se passado, então, mais de 60 anos da publicação do romance. Soube na mesma hora que precisava desse livro! Hoje apresento a vocês: O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, escrito por Helen Caldwell, publicado pela primeira vez em 1960 e tão pouco conhecido aqui no Brasil.

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Como o próprio título sugere, Helen Caldwell compara a obra de Machado de Assis a de outro grande escritor, um bem conhecido em sua língua materna: Shakespeare. Mas as comparações não se limitam a Otelo e Dom Casmurro, embora esse seja o maior foco da análise. A autora busca elementos de diversos textos shakespearianos para explicar referências contidas no romance de Machado de Assis. Outros autores e referências da história mundial também são dissecados pela autora, no decorrer das páginas, mostrando o quanto a obra machadiana é rica e complexa, como aqueles seriados cheios de teorias que adoramos assistir.

Apesar desses elementos de Contos de Inverno, Romeu e Julieta, Macbeth e Hamlet em Dom Casmurro, o romance permanece, em essência a história de um Otelo, como aponta Santiago.

p. 176

A análise de Helen Caldwell, dessa forma, acaba por se transformar em um guia para toda a obra machadiana, em especial Dom Casmurro, Ressurreição e Memorial de Aires, sendo esses últimos praticamente complementares ao primeiro, nas palavras da autora. Helen enche os olhos do leitor e da leitora ao esmiuçar toda a simbologia contida em Dom Casmurro, desde nomes e sobrenomes de personagens, até o uso de cores e elementos da natureza, além de evidenciar pistas e capítulos-chave deixados por Machado de Assis para que consigamos ter uma visão melhor do mistério que ronda toda a trama.

Apenas para citar um exemplo: o capítulo em que Bentinho comenta sobre seu amigo tenor e a teoria de que a vida é uma ópera pode ser considerado solto, perdido, à primeira vista. Porém, Helen Caldwell chama-nos a atenção de que nestas páginas está resumida toda a história que será narrada no restante do livro. A simbologia contida nesse capítulo? Bem, deixarei para o leitor e a leitora descobrirem, para não estragar a surpresa.

Como Santiago observa profeticamente no início do capítulo XCVIII, “Venceu a Razão”, isto é, venceu o argumento legal. Praticamente três gerações – pelo menos de críticos – julgaram Capitu culpada.

Permitam-nos reabrir o caso.

p. 100

O Otelo Brasileiro de Machado de Assis é brilhante e percebemos que a autora se dedicou muito para escrevê-lo. Um livro que vale um estudo detalhado de cada um dos capítulos! É uma pena que não seja tão conhecido no Brasil, mas também não me impressiona. Afinal, foi só após 61 anos da publicação de Dom Casmurro e muitas críticas escritas por mãos masculinas condenando a personagem de “olhos de cigana” que uma mulher conseguiu dizer que havia mais coisas entre Capitu e Bentinho do que poderia supor nossa vã filosofia. Mas isso já é assunto que merece outro post inteiro…

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