Resenha – Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço

Recebi esse livro ainda em 2018, quando o blog participava do Time de Leitores da Companhia das Letras, mas acabei fazendo a leitura apenas em 2021. Em Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, Adriana Negreiros explora a história do cangaço, em especial, do bando de Lampião, sob um olhar feminino, dando voz e destaque àquelas que nunca puderam falar por si.

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O cangaço sempre foi muito romantizado. Na cultura popular, são várias as menções às festas, à resistência aos poderosos da época e uma certa liberdade no estilo de vida, mas a violência permanecia sem menção ou muito subestimada.

Apenas para começar, as mulheres dificilmente entravam para o cangaço por vontade própria, mas sequestradas e violentadas pelos cangaceiros, gerando um clima de terror imenso entre as sertanejas. Não tinha o que pudesse ser feito se um desses caras demonstrasse qualquer interesse por uma moça (ou menina): se já havia muita violência gratuita contra as pessoas comuns, apenas para o divertimento dos cangaceiros, pior ainda seria se alguém tentasse interferir em seus interesses, fossem quais fossem.

Isso derruba parte da ideia de que eles fossem heróis, justiceiros ou pessoas que lutavam “contra o sistema”, ideia esse que foi reforçada por serem eles uma espécie de força rival das volantes, grupos da polícia cuja violência não deixava nada a desejar à dos cangaceiros. Assim, a população estava completamente à mercê da violência, cabendo ao sertanejo apenas escolher aos desmandos de qual grupo se submeteriam.

Maria Bonita foi, de fato, um ponto fora da curva, uma mulher que realizou certas mudanças dentro do cangaço, devido à sua forte personalidade e ao devotamento (dentro do que era possível nas circunstâncias) de Lampião. Porém, ainda que sua entrada no bando tenha levado a certa abertura e alguma melhoria para as cangaceiras, o ambiente ainda era extremamente machista, opressor e insalubre para ela e as companheiras. Fala-se, por exemplo, que a violência que as mulheres do bando sofreram de seus “parceiros” virou amor, mas, segundo a narrativa apresentada pela autora, elas apenas encontraram uma forma de sobreviver naquele mundo hostil.

A lenda em torno de Lampião constituiu muito do atual estereótipo do nordestino e foi explorada de tal maneira que se torna difícil distinguir a romantização do que realmente acontecia. O apagamento do lado violento dentro do cangaço se deve muito ao silenciamento e ao descrédito que as mulheres sofreram, já que se acreditava que elas exageravam suas histórias e que as coisas “nem eram tão ruins assim”.

Os relatos de Adriana Negreiros nessa biografia-reportagem são extremamente fortes, com passagens nauseantes e definitivamente não recomendada para quem tenha gatilhos relacionados à violência contra a mulher e crianças. Apesar de pesado em seu conteúdo, a escrita da autora é bastante fluida, o que torna a leitura e a compreensão da obra fácil. Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço é indispensável para quem deseja conhecer mais da história e da cultura brasileira, em especial do sertão nordestino.

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