Estudando Nosso Lar nº 8 – Dona Laura

Hoje temos mais um pedacinho do nosso estudo sobre esse livro que sempre dá o que falar e, olha… polêmicas hoje! É o livro Nosso Lar, primeiro da série A Vida no Mundo Espiritual, de autoria de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Essa postagem abordará os capítulos 19, 20 e 21. (Adquirindo seu exemplar pelo nosso link na Amazon ou na Livraria da Travessa, você ajuda o blog a crescer!)

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No capítulo 19, André é informado de que há mais uma moradora na casa de dona Laura, sua neta, que retornara há mais ou menos quinze dias da vida física em decorrência de uma tuberculose. A anfitriã explica a André que ela não poderia juntar-se aos demais à mesa das refeições por ainda se encontrar muito perturbada, nervosa, sob as impressões negativas do sofrimento do desencarne, e que essas emanações fluídicas venenosas poderiam afetar o alimento, fazendo mal àqueles que o consumissem. Aqui o primeiro alerta a nós: como estamos fazendo nossas refeições? Estamos mantendo brigas à mesa ou conversas agradáveis? Lembramo-nos da prece antes da alimentação? Que sentimentos colocamos nas nossas refeições aos prepará-las? Afinal, também somos espíritos, embora na experiência do corpo de carne. Quantas vezes a azia, a má digestão, a dor de barriga, não foram provenientes dos nossos próprios pensamentos em desalinho ou mesmo daqueles que nos partilharam a mesa?

Em seguida, André pede para conversar com a jovem recém-desencarnada, no que foi prontamente atendido. Assim, conhecemos Eloísa, que ainda guardava a aparência da enfermidade que lhe levara da Terra e as dores da separação com a mãe e o noivo ainda encarnados. A moça acredita-se desventurada, pois a mãe se contagiara a partir de sua doença e seguiria para o mundo espiritual dentro de poucos dias, e o noivo (acreditava) padecera enormemente com a separação. É então que dona Laura revela à neta que o rapaz, em poucos dias, já estaria casado com a amiga que sempre lhe levava flores no hospital, para o choque até mesmo de André. Aqui podemos verificar alguns pontos interessantes: a moça desejava, ainda que não pronunciasse abertamente, que o noivo lhe seguisse no plano espiritual, já que dona Laura menciona tal anseio oculto de Eloísa. Isso denota o sentimento de posse, muitas vezes confundido com o verdadeiro amor, extremamente comum em nossos relacionamentos terrenos. O verdadeiro amor liberta, por mais que não seja agradável para aquele que se vê sem o parceiro, pois que deseja a felicidade do outro e não sua prisão. Outro aspecto é a superficialidade do sentimento do noivo, que mal esperou que a noiva se desligasse da vida física para já se interessar por sua amiga e começar a fazer planos futuros. Não que o rapaz necessitasse permanecer em luto perpétuo, mas a pressa para o novo relacionamento chega a ser desrespeitoso.

Enquanto a jovem digere as novidades, dona Laura e André retornam à sala, enquanto ela esclarece que a jovem, por sua condição espiritual, teria lugar nos hospitais comuns da colônia. Porém, como a Misericórdia Divina sempre age em favor de todos, foi permitido que a moça se recuperasse junto ao carinho doméstico, com os cuidados da avó, dos tios e, em breve, da própria mãezinha. Quantas vezes a Misericórdia age em nossa vida e nem percebemos, ainda reclamamos? As dores que temos que passar não nos são retiradas, mas o alívio, o apoio, o suporte, sempre vem.

No capítulo 20, dona Laura comenta sobre a natureza das uniões na Terra: raríssimas compostas por almas gêmeas, termo poético para espíritos com imensa afinidade e longa trajetória em comum, já que os espíritos são individuais e não metades codependentes; poucas uniões de espíritos irmãos ou afins, aqueles que, embora não tenham longa história em comum, possuem grande afinidade, o que lhes permite convivência mais harmoniosa; e maioria de uniões de resgate, ou seja, dívidas, pessoas que se unem em matrimônio e que possuem histórico aflitivo, o que explica tantos casamentos complicados. Esse panorama é facilmente compreendido se lembrarmos que a Terra ainda é um mundo de provas e expiações, segundo o que nos esclarecem os espíritos na codificação (consultar O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo para maiores estudos).

Embora dentro da literatura espírita encontremos que tudo deve ser feito no sentido de preservar a união matrimonial, é preciso lembrar que há casos em que é melhor que ocorra a dissolução do casamento do que a conservação deste. Na pergunta 940 de O Livro dos Espíritos e no capítulo XXII de O Evangelho Segundo o Espiritismo (aconselho o leitor a buscá-los) e em outros livros sérios dentro da Doutrina Espírita somos melhor esclarecidos a esse respeito. Então, caso você ou outra pessoa esteja em um relacionamento abusivo, passando por violência moral e física e, principalmente, correndo risco de vida, talvez seja interessante pensar em todas as opções e indispensável procurar ajuda!

Aí nós começamos a ter problemas nesse capítulo. Dona Laura apresenta um discurso que eu (e muitos com quem conversei) considero bastante machista. Saliento que falo do discurso e não da pessoa de dona Laura, afinal o livro foi publicado 1944, os diálogos aconteceram bem antes disso e a senhora já se encontrava no mundo espiritual, ao que tudo indica, há um bom tempo. Assim, dona Laura é fruto de uma sociedade anterior às Guerras Mundiais, ainda no século XIX, sendo compreensível sua maneira de pensar. Além disso, lembremos que dona Laura não é ainda um espírito de luz, mas alguém em evolução, assim como nós, ainda falível. Mas vamos ao discurso:

A primeira problemática é logo no começo, quando dona Laura comenta da comparação feita pelo Ministro do Esclarecimento à época em que ela buscava auxílio, a de que o homem seria uma reta horizontal e a mulher, uma reta vertical, formando um ângulo reto no lar harmonioso. Primeiro que isso exclui qualquer possibilidade de casais homoafetivos, pois seriam duas retas horizontais ou duas retas verticais ou ainda retas em qualquer direção, dependendo da interpretação que se quisesse dar, mas que não ficamos sabendo, pois não há qualquer menção sobre isso no livro. As obras da codificação não tratam diretamente da homossexualidade, até porque o assunto não era tratado (ao menos de forma ampla) naquele período, mas, de acordo com as respostas e comentários dos espíritos, percebe-se que as relações amorosas não são tratadas da forma rígida e dicotômica homem-mulher, mas como espíritos que se encontram por afinidades ou resgates para evoluírem juntos, formando as famílias. Em outras ocasiões, veremos que o sexo biológico é algo pertencente apenas ao corpo de carne, nunca ao espírito. Portanto, o espírito poderá ter experiências encarnatórias em corpos femininos ou masculinos conforme sua necessidade. Ou seja, todos nós podemos e provavelmente já passamos por ambos os tipos biológicos nas nossas diversas encarnações. Algumas obras complementares do Espiritismo, incluindo psicografias de Emmanuel e André Luiz, tratam do assunto homossexualidade nesse mesmo viés, de que são espíritos que se buscam pelos laços de afinidades ou resgates para evoluírem juntos.

A ideia de uma reta horizontal e outra vertical também é bastante problemática porque não se trata apenas de direção ou questão visual. O horizontal significa as coisas do mundo, o mundo do trabalho, dos negócios, o prover material da família, muitas vezes entendido como papel masculino, e o vertical significa o sentimento, a espiritualidade, a educação dos filhos, a harmonia do lar, o papel da boa esposa e da boa mãe, como a sociedade ainda vê. Isso vai ficando mais claro conforme prosseguimos no discurso de dona Laura. Colocarei aqui trechos de sua penúltima fala no referido capítulo, para facilitar os comentários:

As almas femininas não podem permanecer inativas aqui. É preciso aprender a ser mãe, esposa, missionária, irmã. A tarefa da mulher, no lar, não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão. É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constitui abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino.

Bom, primeira coisa: não existe espírito feminino, já que espírito não tem sexo, isso é coisa do corpo carnal. Dona Laura critica um feminismo que provavelmente não conheceu de forma integral, devido à época provável de sua desencarnação. Lembremos: é graças ao feminismo que hoje posso expressar-me nessa página, que pude escolher meu marido e me casar por amor (acredito que tenha sido o caso de dona Laura também), que posso votar, que posso andar na rua sozinha (embora com medo constante), que posso viajar sem meu marido e sem precisar carregar comigo uma carta dele me permitindo viajar e retornar para casa. É muito comum que as pessoas, ainda hoje, critiquem o movimento feminista, porque se escandalizam com algumas manifestações ou porque preferem os seus preconceitos, mas é preciso reconhecer que hoje a mulher só é reconhecida como ser humano por causa do feminismo. E ainda temos muito caminho a trilhar. Se você quiser ler alguém de responsa dentro do Espiritismo falando sobre feminismo, fica aqui a minha recomendação de um texto de Joanna de Ângelis, quem pessoalmente considero um ícone feminista dentro do Espiritismo. Aliás, para quem leu sobre as encarnações de Joanna de Ângelis, vai perceber que ela não se encaixa nem um pouco nesse perfil traçado para mulheres no capítulo 20 de Nosso Lar. Mas continuemos com dona Laura:

A mulher não pode ir ao duelo com os homens, por escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres. A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas.

Novamente: não existe espírito masculino, existe espírito em experiência no corpo masculino. Mas vamos lá! Mulher não pode trabalhar se não for pra fazer coisas parecidas com atividades domésticas? Fala isso para Marie Curie, minha ídolo, dona de dois prêmios Nobel, pioneira na ciência. Fala isso para Rosalind Franklin, Malala e tantas outras que fizeram, estão fazendo e farão diferença nesse mundo por não se contentar com “trabalhos de mulher”. Se o trabalho não exige o uso dos genitais, ele pode ser efetuado por homens e mulheres, e se exige, temos um problema! Toda atividade profissional é importante, mas mais importante é ter liberdade para escolher aquilo que lhe traz satisfação e sensação de dever cumprido, não o que a sociedade acha que é melhor para você.

O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?

As metades da laranja? Não somos metades. Somos inteiros, indivíduos que estão juntos para aprender com o outro e evoluir (falo um pouco sobre a questão da individualidade e os relacionamentos na resenha de A Parte que Falta, confira!). Não é necessário que a mulher fique como pássaro preso em uma gaiola, esperando que o homem volte para ouvir-lhe o cante que, talvez ele não perceba (talvez nem mesmo ela), é de solidão e tristeza. Ambos podem trabalhar, ter suas carreiras, apoiarem-se em seus sonhos individuais e conjuntos e construir a harmonia do lar. Não existe tal rigidez de papeis. Deus não nos fez homem e mulher, Deus nos fez espíritos, que passam por experiências diversas, entre elas a do gênero. Em breve voltaremos a esse assunto espinhoso sobre machismo e Espiritismo. Por hora, prossigamos com nosso livro.

No capítulo 21, dona Laura explica à André como é feita a aquisição das casas na colônia de Nosso Lar. Todas as conquistas “materiais” se dão pelas horas de serviços prestados, que, aparentemente, seguem regras parecidas com as da Terra, de 8 horas diárias. Após 30 mil horas de trabalho, é possível adquirir uma casa, sendo que apenas uma é permitida para cada família espiritual. Ou seja, não será uma para os pais, outra para os sogros, outra para os irmãos, é uma para todos. Também não pode ter várias para a mesma pessoa, um sistema mais equilibrado.

A casa habitada pela família de dona Laura fora conquistada pelos trabalhos de seu marido, que lhe precedera no mundo espiritual. Dona Laura ficou viúva muito jovem e comenta que passou por diversas privações com os filhos ainda pequenos, mas que tais dificuldades foram como bênçãos para seu espírito, já que evitou tentações e possíveis quedas que lhe renderiam algum tempo perambulando pelo Umbral. Aqui novamente ficamos a pensar naquelas dificuldades que maldizemos e que, na verdade, podem ser exatamente as ações da Misericórdia Divina em nossas vidas, nos ajudando a nos manter em pé.

Após juntar-se ao marido em Nosso Lar, ambos permaneceram em trabalhos na colônia, até que começaram a ter flashes de memórias de outras vidas. Sem recuperar ainda a memória integral, mas querendo entender a nova situação, ambos recorreram ao Ministério do Esclarecimento. Foi-lhes permitido, então, que lessem suas memórias de vidas passadas, compreendendo o período de “apenas” trezentos anos e, após a leitura, passes foram ministrados para que recuperassem as impressões vinculadas às memórias.

Alguns fatos interessantes e dignos de consideração: as memórias de outras vidas não surgem no momento do desencarne, é necessário desprender-se da matéria de forma significativa e esperar o momento certo para recuperar as memórias, para que elas possam ser de fato aproveitadas como aprendizado e futuro pagamento de débitos e não objeto do nosso habitual vitimismo. Nem todas as encarnações foram acessadas por dona Laura e seu marido, aquelas anteriores a trezentos anos foram consideradas muito pesadas para que eles as suportassem. No período em que foi permitido que ambos lessem suas memórias, esse acesso foi feito no tempo livre deles, ou seja, continuaram trabalhando suas oito horas habituais. O trabalho não pode parar!

Após a compreensão de seus débitos (que nós não ficamos sabendo), o casal decide-se por nova encarnação. O marido de dona Laura já partira para a nova experiência e ela estaria esperando apenas a chegada da mãe de Eloísa para seguir o marido na vida física.

Curiosidade (que vocês talvez já saibam): diz-se que é na família de dona Laura que reencarnou o mentor espiritual de Chico Xavier, Emmanuel. Aguardemos!

Adquira Nosso Lar

Hoje o texto ficou bastante longo, bastante polêmico e agradeço sinceramente por você ter me acompanhado até aqui, caro leitor! Em breve, voltaremos com mais alguns capítulos.

Bons estudos e boas leituras!

5 comentários em “Estudando Nosso Lar nº 8 – Dona Laura

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  1. Oi, Carol!
    Cheguei hoje por aqui.
    Estou relendo “Nosso Lar” e também me incomodou a parte do suposto intuito do Criador de separação de tarefas entre homem e mulher. Engraçado que isso veio justamente no momento em que venho assistindo à série “Mad Men”, que retrata bastante esse antigo (ou não) estereótipo da mulher como “reta vertical do ângulo reto”.
    Muito bom o seu texto.
    Por que parou de escrever sobre a obra?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Lucas, seja muito bem-vindo! =)
      Eu vi que a série estava disponível no catálogo na Netflix, mas ainda não assisti. Já adicionei na minha lista para conferir!
      Na verdade, eu parei de escrever sobre literatura espírita em geral. Estou meio que dando um tempo com esse assunto. Aconteceram algumas coisas no âmbito pessoal que me afastaram da religião e estou com certo bloqueio para abordar esses temas. Em contrapartida, a leitura e as postagens sobre literatura em geral têm avançado consideravelmente! =D

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      1. Ah, sim! É, eu percebi que você parou com “A Caminho da Luz”, também.
        É uma pena, mas eu super te entendo. Também vivi essas “idas e vindas” com a doutrina. Acontece que, muitas vezes, botamos fé nas pessoas que a “praticam” e esquecemos que falham tanto quanto nós. A doutrina está acima de todas as pessoas. Particularmente, aprendi isso, mas sei que não necessariamente foi isso que aconteceu contigo. Espero que tudo se encaixe aí nesse campo.
        Seguirei acompanhando o seu trabalho. Parabéns!

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      2. Oi Lucas!

        A Caminho da Luz está completa, os textos pararam de ser produzidos porque eu cheguei ao final do livro. Essa é a série de posts mais antiga do blog, a que praticamente inaugurou esse espaço. =)

        Agradeço muito o apoio e sinta-se em casa por aqui! =D

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  2. Muito boa essas explicações!!!!Podemos reler essa obra várias vezes e sempre encontraremos trechos que rendem ótimos estudos e reflexões.Devemos estudar e refletir sempre sobre o que lemos e como é bom compartilhar opiniões e expressões!!!!!Parabéns!!!!

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