Resenha – Sanga Menor

Não sei você, caro leitor, cara leitora, mas eu adoro ouvir as histórias de vida dos mais velhos. Saber de sua infância e adolescência, especialmente os causos de cidade pequena, sempre cheios de coisas curiosas e, muitas vezes inexplicáveis, com um toque de sobrenatural. Foi exatamente essa a sensação que tive ao percorrer as páginas de Sanga Menor, livro escrito pela brasileira de Porto Alegre Cíntia Lacroix e editado pela Dublinense. A história foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura em 2010, na categoria Melhor Livro do Ano – Autor Estreante.

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Sanga Menor é uma cidadezinha interiorana, construída entre a encosta de um morro e uma sanga (uma espécie de córrego que pode secar com facilidade), e bem caricata. Sua população é bastante supersticiosa e tem por principal passatempo cuidar da vida alheia. O maior alvo das línguas da cidade é o neném de 31 anos Lírio Caramunhoz, que mora em um chalé com sua mãe, Rosaura, sua tia, Margô, e seu pai, Percival.

Percival Caramunhoz teve um derrame quando Lírio ainda nem era nascido e ficou preso a uma cadeira de rodas e a uma vida vegetativa. Rosaura, temendo que o filho tivesse a mesma sorte do pai e apavorada com uma pneumonia que o menino tivera aos 11 anos, sufocara-o de cuidados, com uma excessiva superproteção (redundante, eu sei, mas é isso mesmo) e recusando-se a permitir que seu filho crescesse. Tia Margô compartilha da visão dos compatriotas de que o rapaz é um encostado a viver sugando o quanto pode das duas senhoras, que se desvelam para manter a casa e as contas em dia. Lírio, por sua vez, percebe-se um fardo, mas acomoda-se em sua posição de inutilidade, levando o leitor e a leitora a querer entrar na história e dar-lhe uns belos chacoalhões.

E ele se sentia ainda mais culpado: não conseguia participar do custeio das despesas domésticas e tampouco conseguia acompanhar as duas naquele frenesi. Condenado à sala de escassa luz, estava ali, cingido pela colcha de chenile – um socorro contra o frio constante, mas também um polvo de tentáculos apertados.

Mas tudo muda na pacata cidade quando o primo bem-sucedido de Lírio, Gilberto, volta da capital para uma visitinha à família. Após muitas comparações e alfinetadas de tia Margô, Gilberto propõe que o rapaz o acompanhe no retorno ao lar: ele teria um emprego muito bom e garantido que o tiraria daquela inércia em que vivia há tantos anos e o livraria dos mexericos da cidade e do julgamento da tia. Mas nem tudo são flores e muitas surpresas esperam Lírio na capital: entre os perigos da cidade grande, há as histórias de sua própria família e os mistérios da tenebrosa Sanga.

É difícil escrever essa resenha sem dar muitos spoilers, mas tem alguns detalhes que eu não posso deixar passar. O principal, em minha opinião, é a melhor personagem desse livro, Caetana dos Fantoches, irmã de Rosaura e mãe de Gilberto, que já começa a história morta, mas que é uma presença que cresce de forma impressionante a medida que a narrativa de desenrola. A mulher era uma artista visionária, taxada de louca pelos habitantes da cidadezinha, que usava seus fantoches de papel machê para contar histórias aparentemente absurdas, mas que tinham grande profundidade. No começo, eu também pensava que ela era doida, mas acabei me convencendo de que era a única pessoa realmente sã no meio daquilo tudo.

Nos sermões de domingo, o padre Darcy jactava-se ao dizer que Sanga Menor era uma fruta sã, que não havia sido picada pelo bicho pernicioso do meretrício, mas Tia Caetana dizia que fruta sem marca de bicho era venenosa, ou de cera […]

A sanga tem um papel muito importante na narrativa, sendo uma personagem mesmo da trama. A cidade se chama Sanga Menor por causa do córrego de águas escuras que corre na parte baixa da cidade. Os cidadãos temem o lugar e contam muitas histórias mirabolantes para justificar seu medo. Descrevem inclusive as águas como “pútridas”. Bem, eu fiz uma breve pesquisa e me parece que as águas de uma sanga (corrijam-me se eu estiver errada) é realmente mais escura. Mas, para o povo da cidade, isso é um sinal de podridão, de ruína, de algo que deva ser evitado. E essa aura de mistério e sobrenatural em torno da sanga amedronta alguns e fascina outros, costurando muitos acontecimentos e dando liga à história.

Cíntia Lacroix escreve com maestria e se utiliza muito de metáforas e trocadilhos, deixando a narrativa muito poética e profunda. A linguagem franca e as personagens caricatas me fizeram rir muito no início, conforme cheguei a mencionar no meu instagram (@carol.papoliterario), mas ao final eu já não ria. Colocava-me a refletir fortemente nas palavras que chegavam aos meus olhos. São temas complicados, mas que todos vivenciamos de alguma forma, fazendo com que nos encontremos em algum ou vários momentos dentro da história.

Kindle com a capa do livro Sanga Menor ao centro da imagem. O Kindle está posicionado acima de uma capa artesanal para kindle feita em courino preto, com botão vermelho e costura laranja. Há alguns fios de lã pela imagem, nas cores preta e cinza e roxa.

Fiquei impressionada ao fazer minha pesquisa para escrever a resenha e perceber que a obra tem pouca divulgação em blogs e revistas eletrônicas. Afinal, é uma obra interessantíssima, fácil de ler e que traz reflexões muito pertinentes. Fica aqui a dica para que o leitor e a leitora deem uma chance a essa escritora brasileira e ajudem a mudar esse cenário. Faça um chá, pegue uma fatia de um bolo de fubá ou de outro de sua preferência, acomode-se em sua poltrona preferida e deleite-se com o causo dos habitantes curiosos que viviam à margem da sanga.

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5 comentários em “Resenha – Sanga Menor

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  1. Já tinha me interessado por conta do seu post no insta, agora fiquei ainda mais curiosa. Acho que vou pegar uma época da vida só para maratonar os livros da Dublinense porque, aparentemente, são todos sensacionais. =P. Ótima resenha!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Menina, estou nessa também! Estou só esperando a situação financeira dar uma arribada para completar a coleção e maratonar os livros deles! Hahaha
      Obrigada! ❤️

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    1. É um livro injustiçado, na minha opinião, por ser pouco conhecido! Fiquei sabendo dele pelas recomendações da própria editora no IG deles. Recomendo demais!!

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