Resenha – Vitória, a Rainha

Desde pequena que tenho um fascínio estranho e inexplicável pela Inglaterra, em especial a sombria Era Vitoriana (século XIX) em suas representações macabras nos filmes de Tim Burton, o ultrarromantismo de Lord Byron, o monstro de Mary Shelley, o amor estranho e sinistro narrado por Emily Brontë, entre tantos outros que eu poderia passar horas discorrendo a respeito (aliás, se vocês quiserem um post sobre literatura na Era Vitoriana, deixem nos comentários, podemos providenciar com muito prazer!).

Por muitos e muitos anos, me dediquei a pesquisar por conta própria a diminuta figura em torno da qual parecia girar todo esse universo, mas o mundo parecia ter se esquecido dela fora de sua terra natal. Foi então que vi que a editora Companhia das Letras, através do selo Objetiva, lançou Vitória, a Rainha no Brasil, em 2018, uma biografia, escrita por Julia Baird, dessa rainha que fora uma das monarcas mais importantes da Inglaterra. E agora, trago a resenha para vocês.

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O livro começa com uma crise de sucessão: o rei Jorge III tinha 7 filhos homens, mas nenhum com herdeiros ao trono. Vendo a oportunidade que acabava de surgir, o príncipe Edward, duque de Kent e futuro pai de Vitória, então 4º na linha de sucessão, apressou-se em casar-se com a viúva Victoire de Saxe-Coburgo-Saalfeld, na esperança que seus filhos herdassem o trono. Mesmo estando muito longe na linha de sucessão, bem atrás de seus tios, Vitória foi planejada por seus pais para se tornar rainha e toda a sua vida girou em torno disso.

Livro Vitória, a Rainha aberto na representação da árvore genealógica da rainha. O livro está posicionado em cima de um leque envernizado e com temas florais, que aparece no canto direito da imagem. Há uma parte de um colar de imitação de pérolas apoiando-se em cima das páginas, pelo canto superior esquerdo da imagem. Toda a composição está em cima de uma toalha branca com rendas.

Ela foi uma criança solitária, superprotegida, extremamente cobrada e escondida de todos, até mesmo de sua própria família, já que acreditava-se que seus tios queriam matá-la para que não ascendesse o trono. Como se não bastasse, seu pai morrera antes que ela completasse 1 ano de idade, o que teve sérias consequências em sua personalidade, pois a futura rainha passou a buscar uma referência paterna na figura de seus ministros e, principalmente, de seu marido posteriormente.

Vitória cresceu sob a autoridade de uma mãe controladora, que não lhe permitia ao menos descer as escadas sem que estivesse segurando em sua mão ou na de uma de suas damas, e que estava sob a influência de um conselheiro ambicioso e rude de quem a futura rainha criou verdadeira aversão. Assim, as brigas entre mãe e filha eram constantes e a relação entre as duas, bastante complicada.

Mas apesar de todos os seus brinquedos, roupas finas, animais de estimação e passeios de mula, o que realmente lhe faltava eram amizades.

p. 60

A jovem se tornou rainha aos 18 anos e toda a nação a aclamava. E ela estava muito contente com sua tão sonhada liberdade e independência. Pena que durou muito pouco, pois logo se casou com seu primo, Albert, por quem era completamente apaixonada. Até os dias de hoje, a história de amor entre os dois é vendida como perfeita, quase um conto de fadas, mas lendo a biografia, bastante baseada nos diários e correspondências da rainha, podemos entrever um marido bastante abusivo, que não acreditava que as mulheres eram iguais em intelecto aos homens, que tentou governar no lugar da esposa e acabou conseguindo, conforme Vitória entrava e saía de suas 9 gravidezes.

O período em que Vitória permanece casada é descrito como feliz por ela, mas ao mesmo tempo, é possível ver como ela se tornava cada vez mais dependente do marido, duvidando de si mesma e acreditando nas palavras dele de que ela não era capaz de tomar as decisões sozinha. Chega a dar desespero ver como uma mulher antes tão forte e determinada se torna tão submissa.

Quando ingressaram na vida de casados, cada qual tentou afirmar sua vontade no relacionamento que, tradicionalmente, era o mais desigual de todos: marido e mulher, monarca e consorte. Nesse caso, quem tinha o trunfo era o consorte: nunca precisaria gerar filhos.

p. 156

Após a morte de Albert, Vitória vestiu preto pelo resto de sua vida. Exigiu que suas damas usassem cores neutras, inicialmente preto, depois podendo variar entre cinza, branco e tons de roxo, não eram admitidas conversas em volume alto nos palácios e seus filhos não poderiam rir. Vitória acabou se tornando uma mãe quase tão controladora quanto a sua própria.

Quando viúva, porém, aos poucos viu sua determinação anterior ao casamento voltar a surgir. Agora não havia mais Albert para conversar com os ministros, enviar as cartas e tomar as decisões. O leão da Inglaterra despertava de seu sono.

Quarenta anos após a coroação, finalmente Vitória, aos sessenta anos de idade, estava segura de si.

p. 345

A rainha foi uma figura bastante contraditória. Interessava-se pelos relatos de Charles Dickens sobre a vida dos mais pobres e se enternecia e preocupava com aqueles que lhe visitavam o palácio, promovia ações que pudessem gerar algum tipo de retorno para as classes trabalhadoras, mas não incentivava (por vezes até contrariava) quando o Parlamento tentava aprovar leis e decretos que pudessem mexer em impostos ou direitos. Desaprovava os movimentos femininos (e feministas) pelo direito ao voto e de exercer funções até então exclusivamente masculinas, dizendo não ser o papel natural da mulher, enquanto ela própria mandava em seus ministros e comandava o maior império da Terra. Uma espécie de alienação que não lhe permitia reconhecer seus privilégios.

Ao longo do livro, é possível perceber que Vitória tinha um bom coração e uma tremenda força de vontade que foi muito mal conduzida por seus conselheiros, desde sua mãe, até seus ministros e (ouso dizer, principalmente) seu marido. A rainha não tinha preconceitos: teve um melhor amigo (alguns diziam ser seu amante) que era um escocês sem instrução e sem título de nobreza, algo impensável naquela época, a quem Vitória defendia com unhas e dentes. No fim de sua vida, teve um secretário indiano, de quem adorava ouvir as histórias de seu país natal e com quem até aprendeu um pouco de hindustâni. Amava passar seu tempo de forma anônima nas highlands escocesas, conversando com a população local. Não consegui me furtar ao pensamento do que poderia ter sido dessa que já foi uma grande rainha se tivesse sido bem orientada desde o início…

O problema de Vitória não era a falta de preocupação pelos problemas sociais, e sim a falta de contato com eles.

p. 112

A biografia de Vitória não se restringe, porém, à sua figura. Julia Baird comenta sobre diversas personagens importantes da época, com especial destaque a Florence Nightingale, a enfermeira, reformadora social e escritora britânica que revolucionou o tratamento aos feridos de guerra. Os dados sobre a vida da população, em especial das mulheres da época são riquíssimos e apavorantes ao mesmo tempo, bem como os relatos das guerras e conflitos. Dá até para entender um pouco melhor os motivos das Guerras Mundiais que vieram pouco depois da morte de Vitória.

Livro Vitória, a Rainha aberto, mostrando a abertura da Parte II - A rainha adolescente, onde tem a reprodução de uma pintura sua sentada a uma mesa com seus ministros quando subiu ao trono. O Livro está em cima de um leque envernizado com temas florais que se mostra na parte superior da imagem. No canto inferior esquerdo, há uma presilha de cabelo cricular, com fios saindo do centro em direção ao exterior, com strass, acima da página mostrada.

Vitória, a Rainha é um livro bem longo, de letras miúdas e, não vou mentir: é para quem gosta do gênero “biografia” ou se interessa pelo período. Mas é um verdadeiro tesouro e estou muito grata por ter encontrado essa obra. Recomendo que você, caro leitor, cara leitora, dê uma chance à Vitória e deixe que essa figura miúda e contraditória conquiste seu coração também.

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Boas leituras!

2 comentários em “Resenha – Vitória, a Rainha

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  1. Histórias ambientadas na Era vitoriana são algumas das minhas preferidas. Essa biografia parece ótima. Adoraria conhecer mais da vida da rainha Vitória e dos acontecimentos históricos daquele período.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Gio, se você gosta das histórias ambientadas nesse período, tem grandes chances de gostar da biografia dela. Claro que o foco é a rainha, mas a autora fala muito sobre a Inglaterra da época e Charles Dickens e Florence Nightingale aparecem bastante na obra! ❤️

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