Resenha – Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias

Se o leitor e a leitora acompanham já o meu trabalho aqui no blog há algum tempo, já deve ter percebido que é difícil um livro realmente me desagradar. Mesmo quando a obra não é lá a mais incrível, eu sempre acabo achando algo interessante: um contexto histórico, um perfil psicológico, uma forma de escrever que agrada. Bem, quase sempre!

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias foi o livro enviado pela TAG para os assinantes da modalidade Curadoria no mês de março, com edição da Nova Fronteira. A autora é Flannery O’Connor, uma das maiores expoentes do chamado “gótico sulista” dos Estados Unidos, que versa principalmente sobre a decadência dos estados do sul do país e as tendências negativas do ser humano.

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A obra é composta por 10 contos com títulos aparentemente inocentes, que dão ao leitor desavisado a impressão de histórias alegres e talvez até românticas, mas que se revelam sombrias, com personagens mesquinhos e cruéis, expondo o que o ser humano pode ter de pior.

O fato de serem histórias sombrias e trágicas não interferiu no meu julgamento, pois estou acostumada a livros assim. Mas alguns pontos específicos me incomodaram muito: algumas situações me pareceram forçadas nas histórias e muitas delas tratavam da religiosidade das personagens, ainda que de forma implícita, o que me leva a outro aspecto: a autora parecia estar pregando com seus contos, quase numa tentativa de convencer o leitor de uma salvação, uma graça divina. Eu sei que muitos autores se utilizaram e utilizam até hoje de religiosidade, mas a forma como Flannery O’Connor o fez me incomodou muito.

Naquela manhã, já descobrira ter sido feito por um carpinteiro chamado Jesus Cristo, função que antes atribuía ao chamado Sladewall, um médico gordo, de bigode amarelo, que lhe aplicava injeções e achava que o nome dele era Herbert, o que aliás devia ser brincadeira.

O Rio, p. 56-57

Outra coisa que me desagradou profundamente foi a forma de retratar diferentes etnias: existe um grande debate em torno dos preconceitos de O’Connor, se ela seria racista ou não, principalmente pela forma como suas personagens se comportam. Por um lado, há a ideia de que ela apenas expunha o preconceito existente na fala de suas personagens, mas, por outro, não existe um protagonista negro ou pelo menos com uma caracterização que possa nos levar a crer que os negros talvez estejam sendo mal vistos apenas pelas personagens dos contos.

“Mas, Carol, todo mundo é ruim nas histórias dela, você mesma disse ali em cima!”

Pois é, só que no último conto desse livro, O Refugiado de Guerra, existe um estrangeiro fugindo da Segunda Guerra Mundial e, embora todas as personagens tenham uma visão ruim dele em algum momento, percebe-se uma enorme diferença entre sua caracterização e a dos demais. Queria apenas acrescentar alguns dados aqui: Flannery O’Connor é descendente de irlandeses, portanto vista como uma estrangeira pelos seus pares. Além disso, o estado da Geórgia, onde ela vivia e onde a maior parte de suas histórias se passam, fica no Sul dos Estados Unidos, região que, na Guerra Civil Americana, lutou pelo direito de manter os negros escravizados e onde hoje o racismo é maior no país.

Na verdade, foi justamente esse contexto histórico que acabou por dar origem ao movimento literário de que Flannery O’Connor fez parte, mas nem todos os livros seguem a mesma toada. Outro livro pertencente ao gótico sulista é O Coração é um Caçador Solitário, de Carson McCullers, que já foi resenhado aqui e eu apreciei bem mais.

“Não, dona”, disse o Desajustado, enquanto a abotoava, “eu descobri que o crime não importa. Você pode fazer isso ou aquilo, matar um homem ou roubar um pneu do carro dele, porque mais cedo ou mais tarde você se esquecerá do que fez e será punido justamente por isso.”

Um homem bom é difícil de encontrar, p. 44

Após a minha amiga Gio, do Atraídos pela Leitura, comentar lá no Instagram que sempre aprendemos algo com os livros que lemos (com o que concordo plenamente), fiquei me perguntando que lições essa obra me trouxe e acho que ela conseguiu me ensinar um pouco mais sobre como as pessoas brancas e com certa condição financeira do Sul dos Estados Unidos pensavam e agiam naquele período, trazendo mais uma pecinha para o meu quebra-cabeça histórico.

Claro que a experiência literária é única e o leitor e a leitora podem adorar um livro que eu tive vontade de jogar pela janela (sim, isso aconteceu no último conto, mas eu me segurei). Então, te convido a ler o primeiro conto de Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias nesse blog ou escutá-lo no Spotify, onde foi liberado pela TAG, e tirar suas próprias conclusões. Caso se interesse por mais, você poderá adquirir o livro pelos nossos links.

Livro Um Homem Bom é Difícil de Encontrar e outras histórias e revista com conteúdo extra que vem no kit da TAG saindo da ecobag que veio como brinde no kit do mês.

Antes que eu me vá, é importante dizer que, embora a leitura não tenha me agradado, o pessoal da TAG está de parabéns no projeto gráfico, que está bem bonito e combinando com a aura sombria da obra, e no mimo, que eu não entendi até agora o que tem a ver com o resto, mas eu adorei mesmo assim, já que é uma ecobag homenageando o conto O Gato Preto, do maravilhoso Edgar Allan Poe (falamos de uma obra dele aqui).

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