O Coração é um Caçador Solitário – TAG Dezembro de 2018

Estou aqui hoje para falar sobre o livro recebido pelo clube de assinaturas TAG, plano Curadoria, em dezembro do ano passado: O Coração é um Caçador Solitário, de Carson McCullers, publicado pela primeira vez em 1940. A edição exclusiva da TAG conta com 391 páginas e foi editada pela Companhia das Letras, tradução de Sonia Moreira (outra versão disponível para venda na Amazon).

Adquira O Coração é um Caçador Solitário

A TAG é um clube de assinaturas desenvolvido especialmente para amantes da literatura. Todos os meses, o assinante recebe um livro surpresa em um kit especialmente pensado para combinar com a leitura do mês. O plano Curadoria sempre envia uma obra aos leitores indicada por um curador, sempre um intelectual, trazendo maior significado ao livro. Saiba mais no link: TAG Curadoria.

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Kit do mês de dezembro:

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O curador do livro de dezembro é Juan Pablo Villalobos, um escritor mexicano muito ligado à língua portuguesa, através de sua relação com a brasileira Andreia Moroni, com quem tem dois filhos. Villalobos chegou a morar no Brasil por sete anos, tendo diversas experiências literárias nesse período ligados à língua portuguesa. Sua indicação para os assinantes do clube advém da possibilidade de novos pontos de vista que a obra proporciona, além de seu caráter político-social.

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A história se passa em uma cidade no sul dos Estados Unidos, iniciando-se no ano de 1939, enquanto o país ainda enfrentava as consequências da Grande Depressão que assolou o país. É nesse ambiente que conhecemos os personagens principais da trama: o surdo John Singer, personagem central de toda a história e para onde tudo parece convergir, a pré-adolescente rebelde Mick, o médico negro Copeland, o agitador marxista (e um pouco paranoico) Jake Blount e o observador e sensível Biff Brannon.

O amigo de John Singer, também surdo, é internado após alguns acessos de aparente loucura. Isso faz com que Singer acabe convivendo com outras pessoas e recebendo grande atenção delas. Conhece um a um dos demais personagens, que passam a procurá-lo para falar de seus anseios, de seus sonhos, de seus medos, vendo nele uma figura admirável e sábia. A obra é narrada em terceira pessoa e cada capítulo acompanha um dos personagens principais, alternando entre eles, o que me fez lembrar de uma novela, saindo de um núcleo para focar em outro, apesar de haver continuidade na história mesmo quando acontece essa “quebra” na narrativa.

Conforme os capítulos passam, conhecemos um pouco mais da intimidade dos personagens: Jake acredita saber um segredo que outros não sabem, mas que o surdo deve saber, e passa horas falando desse segredo para Singer. A jovem Mick tem sua vida guiada pela música, sempre com uma melodia em sua cabeça, o sonho em tocar piano, e, mesmo sabendo que Singer é surdo, imagina que ele entenda muito de música. Copeland ama sua comunidade mais do que tudo e deseja ardentemente que os negros sejam reconhecidos e tratados como cidadãos iguais a qualquer branco, fazendo o possível para que isso aconteça, e vê em Singer o único branco que nunca foi soberbo ou arrogante com ele, o único digno de respeito em sua opinião. Brannon tem muitos conflitos internos não resolvidos, mas ainda se mostra uma pessoa muito paciente e amável, gostando de observar as pessoas que vão comer em seu café. Singer, por sua vez, sente-se muito só depois que seu amigo fora internado e gosta da companhia daquelas pessoas que o procuram, mas nem sempre consegue compreendê-las, embora sempre trate a todos com educação e cordialidade.

McCullers estudou música por muitos anos em sua vida e parece ter utilizado a estrutura de uma fuga como base para sua obra (como diz C. Michael Smith em trecho da própria revista da TAG, que vem com o kit):

Uma fuga […] apresenta várias vozes, e começa com um tema principal, executado primeiramente por uma voz. Ela é então seguida por outras, que vão entrando sucessivamente e relacionando-se com esse tema de forma variada e cada vez mais intrincada.

Cada um dos personagens é solitário ao seu modo e buscam sanar essa solidão na companhia de Singer, fazendo dele quase um deus. Pelo sentimento de não-pertencimento, acreditam que aquele rapaz surdo é capaz de compreender seus sofrimentos mais íntimos e seus sonhos mais grandiosos, utilizando-o quase como um confessor. Todos acreditam-se perfeitamente compreendidos por ele e veem nele um igual. Em determinado ponto da história, fica claro que o ar de mistério crescera tanto que cada um tinha sua própria versão de quem seria aquele rapaz. Os pobres o acreditavam pobre, os ricos o acreditavam rico, o comerciante turco acreditava-o também turco, mas outro homem tinha certeza de suas origens anglo-saxãs.

Essa projeção do que queremos naquilo que não conhecemos fica muito clara na narrativa e não apenas por parte dos outros personagens, mas também pelo próprio John Singer: ele acredita que seu amigo surdo é sábio e que é capaz de compreendê-lo, mas em muitos momentos a autora nos faz duvidar dessa certeza que o personagem principal tem. A obra nos faz refletir sobre o que estaremos projetando nos outros, quais serão nossos anseios… seremos mesmo solitários? Haverá alguém que nos compreenda? Não será apenas uma falha na comunicação?

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A obra faz parte de um gênero que ficou conhecido como Southern gothic, ou Gótico sulista, que traz personagens com ideais e ações consideradas transgressivas para a época, como uma resposta à elite racista e patriarcal vigente. O pioneiro desse gênero é Edgar Allan Poe, que trata em alguns de seus escritos de temas como a escravidão, ainda que indiretamente ou de forma alegórica. Porém, o mais influente escritor do gênero é William Faulkner, em cujas obras os desdobramentos da Guerra Civil Americana estão muito presentes. Carson McCullers é uma dos diversos escritores que sucederam Falkner e expandiram o movimento, divulgando os problemas políticos e sociais vivenciados pela sociedade daquela época.

O mimo do mês:

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O mimo do mês de dezembro foi o calendário de 2019. Um trabalho lindo da equipe da TAG, em que cada mês recebeu por tema um dos livros enviados pela empresa que mais encantaram os assinantes, ao longo da história da TAG. As ilustrações foram feitas por Mariana Corteze e estão lindas demais! Um ótimo jeito de receber indicações ou recordar algumas leituras enquanto acompanha o ano passar.

Assine TAG - Experiências Literárias

Mal terminei o livro de dezembro e já estou de olho no livro de janeiro (cujo unboxing foi postado aqui)! Venha você também fazer parte desse clube! Assine: TAG Curadoria.

Boas leituras!

2 comentários em “O Coração é um Caçador Solitário – TAG Dezembro de 2018

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