Resenha – Apátridas

Segundo o dicionário online Michaelis, apátrida é a “pessoa sem pátria, que perdeu sua nacionalidade de origem e não obteve outra; sem nacionalidade definida”. Não havia melhor título para o romance de estreia de Alejandro Chacoff, lançado agora em 2020 e que recebi em parceria com a editora Companhia das Letras, através da plataforma NetGalley (Papo Literário integra o Time de Leitores 2020).

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O narrador que nunca é nomeado (recurso que achei muito interessante e de acordo com a proposta) é um rapaz nascido no Brasil, filho de uma brasileira e um chileno, e que morou a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, sendo conhecido por seus parentes como “o neto americano do Sr. José”. Na adolescência, muda-se com sua mãe e sua irmã para a casa de seu avô materno, após a separação complicada dos pais. E é no Mato Grosso, lá pelos anos 1990, que a maior parte da história se passa.

O medo de que “perdêssemos o inglês” substituíra, entre eles, o medo que alguns pais têm de que os filhos percam as raízes.

Apátridas foi uma daquelas obras que tive muita dificuldade em começar a elaborar o que escrever, em parte pela forma como o próprio livro é escrito, em parte pelas emoções que ela suscitou. Essa é uma história de tudo e de nada ao mesmo tempo. Explico-me: ao mesmo tempo em que não é uma saga heroica, cheia de altos e baixos, com um conflito muito específico, coisa que estamos habituados em romances (daí o nada), essa obra retrata diversos aspectos muito próprios do Brasil, personagens extremamente verossímeis, paisagens, hábitos, falas e problemas muito corriqueiros, cotidianos, e com os quais é impossível não se identificar de alguma forma (daí o tudo).

A linguagem utilizada pelo autor não poderia ser mais apropriada. Embora os termos de baixo calão e as descrições cruas de certas passagens possam causar desconforto e até levar à reprovação por parte de alguns leitores, é assim que Alejandro vai desconstruindo tabus e destrinchando problemas antigos e que nunca foram resolvidos no nosso país: o abismo entre ricos e pobres, o racismo, a desvalorização da intelectualidade, a arrogância com a intelectualidade adquirida, a supervalorização do que é estrangeiro, entre tantos outros que poderíamos ficar horas apenas elencando.

Começou então a mastigar as notas lentamente e, com uma expressão parcimoniosa, explicou ao meu avô que o gosto umedecido das cédulas era meio metálico, parecia até sangue.

Por vezes, o desconforto gerado é justamente por nos identificarmos com alguma parte da história, ou pior, identificarmos vários dos personagens em nossas vidas. A sensação que vai tomando o narrador, de querer fugir, se libertar daquela situação por vezes tão sufocante em que vive, acabou me envolvendo também. E quantas vezes não queremos apenas escapar das situações que nos consomem?

Quem seriam os apátridas da história? O narrador certamente: não é brasileiro, não é americano, não é chileno, não se sente pertencente, sequer nos dá a saber seu nome. Mas diversos outros personagens estão deslocados de alguma forma, se não todos. E nós? Onde estamos nessa história toda? Esse pode não ser o retrato exato de nossa família, de nossas vidas, mas não deixa de ter suas semelhanças.

Mala de viagem aberta, com uma camiseta de manga comprida branca aberta com a manga para fora, um tecido preto jogado dentro da mala, um livreto com capa de passaporte com estampa de aviões de papel e um kindle com a capa do livro Apátridas.

Como li na resenha do jornal Plural, Apátridas “é um livro importante sobre um país desimportante”. Assim, convido o leitor e a leitora, corajosos que são, para se aventurarem nesse livro, que bem poderia ser um retrato de família, dessa família complicada, de sobrenome Brasil.

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