Carta de amor aos livros – minha versão

Hoje não tem resenha. Meu coração dói depois da leitura de um texto belíssimo de Luiz Schwarcz, no blog da Companhia das Letras (link aqui), e me senti na obrigação de fazer minha própria carta de amor aos livros. A você, caro leitor, peço a paciência de me ler, pois faço aqui um desabafo, um apelo, um pedido de ajuda.

Não sei precisar quando nasceu meu amor pelos livros. Sei que desde muito pequena já me interessava pelas histórias que pareciam sair dos papeis que minha mãe lia para mim. Ela foi, com certeza, a minha influência, sempre às voltas com seus próprios livros. Minha família percebeu desde cedo esse meu interesse. Quando eu tinha entre 3 e 4 anos, meu avô comprou na feira uma coleção de livros chamada “Contos Sonoros”, que vinha com uma fita cassete onde as duas histórias do livro eram narradas, com sons específicos que indicavam a mudança de página. Eu passava os dedinhos pelas letras do livro tentando acompanhar a história, e foi assim que aprendi a ler.

Desde então, não parei mais! Devorava a biblioteca da escola, terminava minhas lições o mais rápido possível para poder iniciar a leitura do livro que aguardava paciente em minha mochila. Às vezes, pegava o livro na biblioteca antes do início das aulas e já devolvia no intervalo, ansiosa por um novo título. Quando fui estudar em um colégio no centro da cidade e precisava pegar ônibus, e também quando ia e voltava da faculdade, os livros sempre me acompanhavam. Até mesmo as filas de banco pareciam agradáveis, já que meus amigos estavam ali para me fazer companhia. Sim, meu amigos!

Os livros sempre foram os meus melhores amigos. Contaram-me sobre o mundo lá fora, países distantes, terras com magia, fadas, bruxas, falaram-me de guerras, de animais, de crime e mistério, de detetives famosos, líderes famosos e outras pessoas nem tão famosas assim. Livraram-me do tédio, da solidão. Por isso sempre os tratei com o maior carinho e consideração, evitando riscá-los, marcar suas lombadas ou sujar e fazer orelhas em suas páginas. A devoção por esse objeto quase mágico tomou conta do meu ser a ponto de não conseguir ir a qualquer lugar sem um deles comigo. Aliás, minhas bolsas sempre são escolhidas a partir do critério de caber um livro ali.

Logo cedo aprendi que nem todos gostavam de livros. Na verdade, eram bem poucos os que liam. Passei a me identificar com a Bela (A Bela e a Fera), pois era uma menina que amava ler e que era considerada estranha por isso. Eu era a estranha da turma, vivia com a cabeça nos livros, falava palavras difíceis (normalmente tiradas do último volume em meu poder). Sonhei com minha própria biblioteca, que meu pai, com seu jeitinho, tornou realidade, com todas aquelas prateleiras no meu quarto. Era tão maravilhoso ter os livros como a última e a primeira visão do dia!

E eu cresci assim, estranha, amando objetos que não eram relevantes para outras pessoas. Hoje, ainda sou aquela menina, rodeada pelos seus melhores amigos e, como boa amiga, comprei sua briga. Luto uma batalha que parece perdida, a batalha pelos livros, pela educação, pela cultura. O Brasil é um país que lê muito pouco, a cultura não parece ter vez na vida da nação. Os museus pegam fogo, as bibliotecas estão às traças, as livrarias vão à falência.

Não faz muito tempo, levei um susto ao me deparar com a Saraiva da minha cidade de portas fechadas. Alarmada, chorei, como de frente à um túmulo. Acreditei que aquela seria uma das várias lojas fechadas do grupo, fato anunciado naquela mesma semana. Por sorte, dias depois, ela reabriu, mas até quando? Já é sabido que a Saraiva e a Cultura, duas das maiores livrarias do país se encontram em recuperação judicial. A Cultura, como esquecer a Cultura, aquela loja maravilhosa e enorme da Avenida Paulista onde quase enlouqueci! Sentei-me no chão com seus volumes raros entre minhas mãos, encontrei verdadeiras preciosidades, foi como conversar com um sábio! Lembro de ter sido a última cliente a passar pelo caixa com meus livros, as luzes já estavam se apagando. Como podemos deixar santuários como esses definharem e morrerem?

Cada vez fica mais difícil publicar um livro. Tenho um amigo que escreveu uma obra belíssima e que adoraria resenhar no blog, mas que não consegue publicar. Falta de criatividade ou qualidade? Recessão, cautela, falta de recursos, tempos sombrios, são respostas melhores… Conversando com outro amigo sobre os problemas enfrentados pela editora Abril, tão antiga no setor, o que provocou vários transtornos com relação às publicações e distribuição de títulos, ele falou de como costumavam ser os jornais, sempre impressos, diários, grossos, e que, hoje, são breves e em versão digital. Lembro-me de seu apontamento de que, talvez, a minha sonhada biblioteca particular pudesse ser uma relíquia algum dia. Esse quadro doeu fundo na minha alma e, saindo discretamente de sua companhia, a fim de não alarmá-lo, me pus a chorar. Será que viverei para ver a morte de meus amigos?

“Mas e as mídias digitais?”, você pode estar se perguntando, “elas não são boas formas de divulgação?”

À princípio sim, e é com esperança nas mídias digitais que estou aqui com o blog, como tantos outros com seus próprios canais de comunicação. Porém, em um país sem hábito de leitura, isso pode ter um lado problemático. Vivemos momentos em que somos inundados pelas notícias falsas, vendidas como verdadeiras, já que qualquer pessoa pode publicar o que quiser. Por que caímos nessas falácias? Por que não sabemos buscar os fatos, não pesquisamos, não lemos. Muitas vezes, temos preguiça mesmo de abrir outra aba no navegador e buscar sites de notícias confiáveis. Como esse cenário pode ser promissor?

E os e-books, ah! os e-books, ótimas opções para quem quer a praticidade de ler em qualquer lugar. Mas serão originais esses e-books, comprados de livrarias virtuais? Ou são cópias ilegais? “Mas, Carol, antigamente se tirava cópias dos livros!”, você pode me dizer. Realmente, era possível ir até uma máquina e tirar xerox das páginas dos livros. Algo extremamente trabalhoso e, muitas vezes, caro. Tão caro que, em muitos casos, ultrapassava o valor do próprio livro, o que levava o leitor a preferir o original. As cópias eram normalmente utilizadas para pequenos trechos ou para a preservação de títulos que já não se encontravam mais nos estabelecimentos comerciais. E por falar em preservação…

A você, querido leitor, que esteve até aqui segurando firme minhas mãos, que me emprestou seu ombro e seus olhos nesse meu desabafo, a você eu apelo: preserve o livro, compre essa batalha! Se nos unirmos, podemos vencer! Dê livros de presente nesse Natal, e no outro, e no outro, e nos aniversários, e no dia das mães, e no dia dos pais, e no dia das crianças, e em datas aleatórias. Leia livros, indique livros, “esqueça” livros em locais públicos, leia um livro para alguém, compre livros! Lembre-se daquela livraria não tão conhecida, daquele gênero não tão disputado, daquele autor não tão famoso. Esses são os que mais precisam de nós para sobreviver a essa tempestade. Apoie os grandes, apoie os pequenos, apoie seu amigo que escreve poesias, apoie sua amiga que quer publicar um romance, apoie a criança que quer conhecer o mundo e sua porta é feita de papel e tinta. Apoie-nos!

Viva a livraria!

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