A Cabana do Pai Tomás

Lembro-me de estar perambulando pelos corredores da biblioteca da UEL quando me deparei com um volume que me chamou a atenção. Tinha a capa preta dura, com letras gravadas em dourado, não era chamativo, não estava em destaque, estava entre outros volumes igualmente comuns na seção de literatura norte-americana e, ainda assim, conquistou meu interesse. Levei o volume para casa e descobri uma das histórias mais emocionantes e mais marcantes da minha vida! Era uma edição mais antiga de A Cabana do Pai Tomás (Uncle Tom’s Cabin em inglês), escrito por Harriet Beecher Stowe, lançado no formato de livro pela primeira vez em 1852 e atualmente editado no Brasil pela Amarilys, versão de 2017, com 672 páginas. (Adquirindo seu exemplar pelo nosso link na Amazon ou na Livraria da Travessa, você ajuda o blog a crescer!)

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A história inicia com a conversa entre o senhor Shelby, dono de terras e escravos, e o senhor Haley, comerciante de escravos, nas propriedades do primeiro, no Kentucky. Shelby deve dinheiro a Haley e, para saldar suas dívidas, cede ao comerciante dois de seus escravos: o bom e fiel Tomás (Tom no original em inglês), que lhe serve desde que ainda era uma criança, e o pequeno Harry, filho de Eliza, escrava de sua esposa. Eliza não aceita a venda do filho e decide fugir com ele em direção ao Canadá, para onde seu marido e muitos outros já haviam fugido em busca de sua liberdade, desencadeando uma das mais corajosas e emocionantes sequências do livro. Em contrapartida, Tomás aceita a sua venda e não aceita fugir com Eliza, embora isso signifique deixar sua esposa, Cloé, e seus filhinhos na fazenda dos Shelby. Tomás tem fé na promessa de que o senhor Shelby irá conseguir o dinheiro para readquiri-lo, o que lhe permitiria retornar a sua família. Porém, isso dependeria da promessa do senhor Haley de não vender Tomás antes de um ano, a qual é descumprida, dando início a outra sucessão de acontecimentos, dessa vez com o personagem que dá nome à obra.

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As histórias e personagens que compõem o livro foram inspiradas em fatos reais, acontecidos nos Estados Unidos da América, alguns vistos e vividos pela própria autora, que chegou a abrigar, esconder e ensinar fugitivos a ler e escrever, outros contados por pessoas próximas a ela, outros ainda retirados de manchetes dos jornais da época. Quando foi aprovada a lei do Escravo Fugitivo em 1850, que punia cidadãos que ajudassem fugitivos, Stowe resolveu colocar mãos à obra e iniciou a escrito do livro que entraria para História.

Inicialmente, a história de Tomás e demais personagens foi lançada em capítulos, por 40 semanas, no jornal The National Era, em 1851. O sucesso foi tamanho que, quando a publicação falhou uma semana, leitores furiosos enviaram diversas cartas reclamando. No ano seguinte, a narrativa foi publicada no formato de livro e estourou em vendas: foram 3.000 cópias vendidas no primeiro dia, 300.000 no primeiro ano nos Estados Unidos e 200.000 cópias no primeiro ano na Grã-Bretanha. A Cabana do Pai Tomás era companheiro fiel da Bíblia em muitas prateleiras de livros no século XIX, chegando a ser o segundo livro mais vendido dos Estados Unidos.

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Todo esse sucesso teve repercussões maiores que apenas o divertimento da população. Dois anos após o lançamento do livro, nascia o Partido Republicano, abraçando a causa abolicionista. Em 1861, estourava a Guerra Civil americana, durante a gestão do presidente Abraham Lincoln, que, por sua vez (reza a lenda), teria dito a Stowe que ela era a pequena mulher que causará toda aquela briga.

Stowe era extremamente religiosa e isso fica bastante claro na sua escrita. Em diversos momentos, a autora dá sermões ou destaca momentos de religiosidade dos personagens, como as leituras da Bíblia de Tomás. Além disso, para ela, o bom cristão e o bom cidadão são coisas indissociáveis, tornando o discurso anti-escravagista da obra ainda mais forte. Além disso, a autora chegou a afirmar que sua narrativa foi inspirada em uma visão do martírio de um negro escravizado, que teria inspirado seu personagem principal. Em outro momento, Stowe afirma que entidades teriam escrito o livro através dela, atribuindo a obra à inspiração divina.

Stowe nunca autorizou nenhuma peça teatral, o que acabou gerando uma infinidade de versões adaptadas em sua época. A mais famosa dela foi a de George Aiken, que contribuiu bastante para a divulgação da mensagem abolicionista da obra original. Porém, nem todas as adaptações seguiram a linha original da autora, dando origem a diversas interpretações e muitas distorções. Algumas versões chegavam a ridicularizar as personagens negras da obra e utilizar o discurso a favor da escravidão, contribuindo igualmente para a propagação de estereótipos a respeito dos negros americanos, que são perceptíveis até os dias atuais. Outras versões para cinema e até mesmo uma novela brasileira (exibida na Globo entre 1969 e 1970, bastante controversa e recebendo diversas críticas) foram realizadas.

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Embora aclamado no século XIX e com certa influência em uma das guerras mais importantes da história dos Estados Unidos da América, o livro perdeu prestígio no século XX, quando a comunidade negra americana passou a repudiá-lo, devido, entre outros aspectos, à passividade da personagem principal. Tomás não é um herói que briga com os seus senhores, mas é um mártir que aceita seu destino cruel em nome da religião daqueles que o oprimem. Uncle Tom (nome do personagem no original em inglês) é a maior ofensa que se pode fazer a um negro nos Estados Unidos.

Como brasileira e, principalmente, branca, não sou capaz de julgar uma situação que não vivencio e, portanto, não posso mensurar a importância atual da obra para o movimento negro americano. Porém, é interessante lembrar que a religiosidade de Stowe pode ter influenciado a passividade da personagem principal, já que pode ser traçado um paralelo entre o comportamento de Tomás e de Jesus, modelo para os cristãos. Além disso, temos outras personagens no livro que mostram atitude de resistência a opressão sofrida, como a própria Eliza, George (marido de Eliza) e Cassy.

Encerro dizendo que é uma obra primorosa, mas que deve ser lida com o cuidado de se considerar o contexto em que foi escrita. Trata-se de um livro de estilo sentimental e melodramático bastante próprio do século XIX, escrito por uma mulher branca bastante religiosa e a favor da causa abolicionista. Em alguns momentos, o leitor se deparará com sermões religiosos, em outros, com alguns clichés típicos da época, mas são coisas que não nos fazem abandonar outros clássicos, então porque torcer o nariz para Harriet Beecher Stowe?

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Boas leituras!

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