O Diário de Myriam

É bastante comum a escrita em diários durante a infância. Alguns pessoas mantêm o hábito durante a juventude e, até mesmo, na idade adulta. Normalmente são narrados fatos do cotidiano: as idas à escola, as brincadeiras com os amigos, os passeios em família. Mas, se o país de quem escreve entra em guerra, um cotidiano não tão simples e bastante dolorido acaba sendo narrado em despretensiosas páginas. O Diário de Myriam é um relato real, de uma guerra que ainda está acontecendo, e foi trazido para o Brasil pela editora DarkSide, com seu selo Crânio, em 2018, contando com 288 páginas. (Adquira seu exemplar pelo nosso link da Amazon, da DarkSide ou da Livraria da Travessa e ajude o blog a crescer!)

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Myriam Rawick tinha apenas seis anos quando, em junho de 2011, começou a escrever em seu diário. A menina mora com seus pais e sua irmã mais nova na cidade de Alepo, na Síria, e conta sobre sua rotina na escola (ela é uma estudante dedicada), sua melhor amiga, Judi, sobre a cidade e seus encantos, como a mistura de cores e aromas do suque, que parece um shopping a céu aberto para as referências ocidentais. Aos poucos, os relatos vão ficando mais tensos: são protestos de ruas que impedem as meninas de ir ao colégio, os desenhos interrompidos na TV para as notícias do plantão, a água e a eletricidade começam a falhar. De repente, os tiros, as bombas, a falta de alimentos, o pavor vivido pelos moradores da cidade.

Ela me disse que, uma manhã, homens haviam chegado ao bairro deles com uma máscara preta no rosto e metralhadoras. Que eles os tinham colocado para fora de casa gritando Allahu akbar (“Alá é o maior”, em árabe).

O leitor que esperar relatos quase jornalísticos, com nomes dos principais líderes, datas e termos complicados, bem como justificativas para a guerra que se instaurou na Síria, irá se decepcionar. A todo o momento, somos defrontados com o lado humano da guerra, daqueles que sofrem, que são bombardeados, que são privados do direito de ir à escola, de se alimentar, de tomar um banho (já que passam-se dias sem que a água retorne), que precisam atravessar as ruas correndo para não serem alvejados pelos atiradores escondidos nos prédios. Tudo isso pelos olhos de uma criança.

Percebe-se a tentativa, em especial da mãe de Myriam, de poupar as crianças dos acontecimentos tristes vividos naqueles dias. Mas chega o momento em que a guerra arromba as portas e obrigada as meninas a amadurecer precocemente, roubando-lhes a infância, fazendo-lhes refugiadas e prisioneiras em sua própria cidade, um dia bela e exuberante. O entusiasmo de Myriam diminui, o que é notado pelo espaçamento nos registros em seu diário. A menina já não tem tanta vontade de escrever.

Lá dentro havia uma cadeira e uma mesa ainda de pé. Como se alguém tivesse ficado sentado ali, olhando esses quatro anos de guerra.

Algo, porém, que salta aos olhos e emociona, é a solidariedade dessas pessoas, que dividiam abrigo, dividiam comida, dividiam o gás de cozinha, cuidavam uns dos outros. Quando uma família conseguia o suficiente para fazer comida, saía distribuindo para todos os vizinhos do prédio. Quando havia bombardeios, os vizinhos abriam suas portas para que os outros pudessem se abrigar e se sentir um pouco mais seguros. Uma humanidade que muitas vezes falta em dias de paz.

Os relatos de Myriam cessam em março de 2017, quando tinha 13 anos, com uma trégua que traz a esperança de que a guerra acabe. Bem, sabemos que a guerra perdura até os dias de hoje, somando centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados, provocando o maior deslocamento de pessoas visto no mundo desde a Segunda Guerra Mundial.

Hoje eu fiz onze anos. É meu aniversário. […] Em vez de colocar velas em cima do bolo que comprei com mamãe, preferi colocá-las diante do altar e rezar por eles.

O Diário de Myriam vem sendo comparado ao Diário de Anne Frank (resenha aqui), mas acredito que as semelhanças sejam devido ao contexto de guerra e ao formato de diário. Os estilos e as meninas são bastante diferentes. Com relação a importância da obra, fica difícil comparar, pois no primeiro caso é uma guerra em curso e no segundo, a Segunda Grande Guerra, porém já finda.

Essa é uma obra que, pelo formato de diário e pela escrita infantilizada, pode fluir muito bem, mas que possui uma profundidade muito grande. Em muitos momentos, o leitor pode se pegar pensando: “o que eu estava fazendo nesse dia?”, “Olha, esse era o dia do meu aniversário!”. É uma leitura que nos aproxima da realidade dessas pessoas, nos humaniza, causa empatia, algo que é auxiliado pelas fotos impressionantes e pelos relatos complementares presentes no livro. Por fim, é uma obra que faz refletir sobre a realidade dos refugiados, que muitas vezes veem as portas de outras nações se fecharem para eles, que muitas vezes ouvem os mais diversos absurdos sobre quererem tirar vantagem de outros países ou roubarem empregos. Uma obra que traz a crise humanitária não apenas para nossos olhos e ouvidos, mas para nossas mãos.

Às vezes, a gente pensa que são pessoas que vão nos tirar daqui, mas não. Os aviões nunca pousam e só largam bombas.

E se você quiser ajudar os refugiados da Síria, o site oficial do livro O Diário de Myriam concentra os links das ONGs sérias que fazem diversos trabalhos por lá. Clique e saiba como ajudar.

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Boas leituras!

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