Resenha – Estação Atocha

Confesso que quando eu abri a minha caixa da TAG de fevereiro e vi a capa do livro, a luva e a revista que acompanham o kit, pensei: “Senhor, qual será a loucura desse mês?” Sério, o visual era muito estranho para mim à princípio e a proposto do clube é que o projeto gráfico sempre esteja relacionado à história. Fiquei muito curiosa, mas comecei a ler despretensiosamente. Comecei o livro odiando o protagonista e sem entender muita coisa e terminei achando que tudo fazia muito sentido, inclusive a capa, da qual acabei por gostar muito. E qual é esse livro capaz de suscitar tantas emoções contraditórias? É o Estação Atocha, editado pela Rádio Londres, com 224 páginas, de autoria de Ben Lerner e publicado pela primeira vez em 2011.

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Adam Gordon é um jovem estadounidense que ganha uma bolsa para morar na Espanha por um tempo, estudar sua Guerra Civil, a relação do conflito com a literatura e escrever um longo poema sobre tudo isso. Porém, que tudo o que o rapaz não faz é se dedicar a seu projeto, ou ao menos é o que ele faz o leitor crer. O jovem passa seus dias a fumar, drogar-se, abusar do álcool, de medicamentos e de café. Como se não bastasse, Adam se recusa a frequentar um curso de espanhol para aprender a língua do país em que está, o que lhe rende situações muito complicadas e engraçadas (para quem está lendo), além de passar a mentir compulsivamente: sobre seu projeto, sobre sua família e sobre si mesmo.

Ele me explicou que era dono de uma galeria em Salamanca, o bairro mais chique da cidade, ou talvez tenha falado que trabalhava nela e que sabe-se lá o irmão ou o namorado era um fotógrafo famoso ou vendia fotografias famosas ou era um operador de câmera muito conhecido.

p. 28

A essa altura, você pode estar se perguntando: “como você não largou esse livro e ainda por cima conseguiu gostar dele?” Acontece que a narrativa é construída de forma bastante divertida e honesta por parte do protagonista, o que torna a leitura muito fluida. De repente, me peguei pensando nos problemas pessoais do personagem e tentando entendê-lo, simpática a seus conflitos internos, mesmo ele tendo inúmeros defeitos e se comportando de forma bem canalha às vezes.

Adam é um cara que se apresenta como um grande mentiroso, que fica curtindo a vida, fingindo ser um poeta, mas que não consegue ter uma experiência artística verdadeira, alguém que não consegue se comunicar adequadamente na língua local além do trivial e que se passa por um grande intelectual para impressionar a todos, em especial às mulheres, um perfeito narcisista. Só que Adam também sofre de ansiedade, fica à beira de ataques de pânicos muitas vezes, sente como se estivesse desconectado do mundo e não acredita de fato em seu próprio potencial. Conforme o livro vai chegando aos finalmentes (assim como o prazo para Adam entregar seu trabalho), vai ficando cada vez mais claro que é provável que o rapaz sofra da síndrome do impostor, bastante comentada, mas ainda não oficialmente reconhecida.

Não me envergonhava fingir-me inspirado na frente de Isabel, mas me senti mal por acreditar que estava inspirado de verdade.

p. 70

A síndrome do impostor acomete pessoas capacitadas que sofrem de inferioridade ilusória, que acreditam que todo o sucesso que conquistam se deva à sorte ou a outros fatores que não suas próprias habilidades. Em outras palavras, sentem-se uma fraude, termo bastante usado pelo próprio protagonista ao se definir. Aos poucos, percebemos que Adam participa de leituras públicas de seus poemas (afinal, ele estava, sim, escrevendo), conversa naturalmente com os espanhóis em sua língua materna e sofre de grande culpa após as mentiras que conta e não consegue se desembaraçar delas.

Talvez Adam seja só um jovem meio perdido num mundo desconhecido, com problemas de autoestima e ansiedade e que precisa de um pouco de compreensão daqueles que cruzam seu caminho (mesmo que, às vezes, ele sendo muito chato). Essa ideia de que Adam pode sofrer da síndrome do impostor também está na resenha que o R.izze.nhas fez para esse mesmo livro, vale a pena conferir.

Além da questão psicológica do personagem, a obra traz outros assuntos interessantes, a começar pela própria arte! O livro é recheado de referência às mais diversas manifestações de arte, quase numa metalinguagem, falando sobre outros livros, poemas e autores, quadros e pintores, cinemas e cineastas e até mesmo arquitetura. E o autor acaba por questionar a forma como a arte é interpretada entre aqueles que se dizem mais cultos, já que há muitos momentos em que personagens procuram significados profundos onde não havia. É o caso dos panos pretos cobrindo os quadros na galeria de arte em sinal de luto ou mesmo da poesia de Adam, em que ele próprio vira dois homens discutirem apaixonadamente os possíveis significados de suas palavras quando tais ideias não haviam lhe passado pela mente.

Depois iríamos conhecer Adam Gordon, que estava em Madri como bolsista de uma prestigiosa fundação, cuja obra tinha sei lá que efeito sobre sei lá o quê, cuja poesia era profundamente política e rememorava um poeta espanhol de quem eu nunca tinha ouvido falar, com a única diferença de que, em vez de atacar Franco, atacava os Estados Unidos de Bush.

p. 45

A relação entre arte, em especial literatura, e política é questionada o tempo todo, inicialmente com o próprio projeto do protagonista de escrever um longo poema sobre a Guerra Civil Espanhola e depois com os atentatos terroristas à Estação Atocha, que dá nome ao livro, em 11 de março de 2004, vividos pelos personagens. Os atentados, ocorridos apenas três dias antes das eleições gerais no país, foram ataques coordenados a três estações madrilenhas e a um comboio a caminho de Atocha e até hoje não há provas sobre sua autoria. Os maiores partidos da Espanha acusaram-se mutuamente, utilizando o acontecido para fins eleitorais, e uma onda de protestos populares tomaram conta das ruas da capital espanhola. E tudo isso está descrito no livro, de forma romanceada.

Resenha Estação Atocha

Estação Atocha é um livro muito interessante, que desafia o poder de empatia do leitor, uma vez que o protagonista “se vende” como odiável e é preciso olhar além das aparências para enxergá-lo. Também é uma obra que não deixa claro o que quer expressar, se são os problemas pessoais enfrentados por um jovem no exterior, se uma crítica ao mundo da arte atual, se os problemas políticos e as guerras, se tudo ou nada disso. Ou talvez seja justamente esse o ponto: deixar a interpretação aberta ao público, para que cada um enxergue o que lhe convêm, assim como os críticos presentes na narrativa.

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Boas leituras!

2 comentários em “Resenha – Estação Atocha

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