Resenha – Os donos do inverno

Aquele que não tiver desavenças na família que atire a primeira pedra! Na convivência com pessoas, em especial os mais próximos, é comum existirem atritos, discussões e afastamentos. E também reaproximações. De forma muito poética e profunda, Altair Martins relata, em Os donos do inverno, o rompimento de dois irmãos após o falecimento de um terceiro e a forma inusitada e emocionante como retomam esses laços, em mais uma bela edição da Não Editora, parte da Editora Dublinense.

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Fernando e Elias não se falam há 24 anos, desde que o irmão mais velho, o jóquei Carlos, morreu em um acidente de moto, pouco antes de disputar uma tão sonhada corrida em Buenos Aires. Um belo dia, conversando com cavalos (sim, o equino, de quatro patas, que relincha), Elias decide procurar Fernando e que ambos devem levar os ossos do irmão para a corrida que ele teria disputado se não tivesse morrido. E assim começa a grande viagem de Fernando e Elias, desde o Rio Grande do Sul até Buenos Aires, cheia de perigos, aventuras, dores e risadas.

Kindle com a capa de Os Donos do Inverno envolto por uma echarpe xadrez.

O fato de Elias ser capaz de falar com cavalos causa grande estranheza no início, mas, após algumas páginas, parecia tão natural que eu mesma senti que poderia bater um papo com um deles por aí. Os equinos são presença constante em toda a obra, desde a composição belíssima da capa até divagações das personagens principais.

Mas não são apenas os cavalos os animais presentes na obra. Diversos outros aparecem, na maioria das vezes sofrendo nas mãos do bicho homem, o que nos leva a questionar a racionalidade e a suposta superioridade do ser humano em relação aos demais membros do reino animal. Aos amantes de bichinhos, fica o aviso de cenas muito fortes e dolorosas.

O Elias tosse, e o Fernando fica pensando na ideia de um país só de cavalos. Tudo é campo, eles correm quando querem, negociam espaços entre eles, fazem filhos, e a comida verde cobre o chão. É um país sem sobrenome, e os cavalos não olham para a frente, porque, assim, cuidam melhor de quem corre ao lado.

A viagem dos irmãos pode ser interpretada de muitas formas. Ao mesmo tempo que Elias e Fernando empreendem uma longa viagem de carro, também percorrem as memórias da infância e da juventude, desenterrando traumas, revisando conceitos, atravessando o luto que não fora resolvido no tempo devido.

Com as conversas e a comparação das memórias, vem os questionamentos se as lembranças podem ser retratos fiéis de um passado. Será que era tudo tão bom ou tão ruim quanto nos recordamos? Será que eu realmente estive lá ou apenas me contaram? As pessoas que se foram para sempre (ao menos na visão materialista) de nosso convívio eram tão boas quanto nos recordamos ou a ausência delas e a carga de culpa que sentimos é que as tornam perfeitas aos nossos olhos?

Acho que as lembranças não tem mesmo data, só lugar.

A linguagem empregada na narrativa pode deixar o leitor e a leitora confusos, já que o autor emprega o uso do “nós” sem deixar claro quem é o narrador. Ao mesmo tempo, esse recurso instiga a querer saber mais, a querer entender quem está por trás da história. Será um fantasma? Será uma história narrada por duas pessoas? Será um dos cavalos? Não direi aqui minha interpretação para o fato para não estragar a experiência de sua leitura, mas, assim que termine o livro, poderemos bater um papo a respeito.

Em tempos de reclusão, Os donos do inverno é um excelente livro para pensar em relações familiares, o que é, de fato, a morte, os processos do luto, os traumas, enfim: é uma obra com diversos níveis de interpretação e que, com certeza, vai te prender em algum deles! Caso tenha interesse em saber mais, o próprio autor deu uma entrevista por ocasião do lançamento do livro ao Pioneiro e você pode lê-lo nesse link.

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Boas leituras!

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