Como se faz uma leitora?

Ela sempre teve um grande fascínio pelas letras. Sempre curiosa, não deixava passar uma placa na rua sem que perguntasse o que estava escrito. Ela sabia, ou pelo menos intuía, que aqueles símbolos estranhos e repetitivos podiam abrigar todos os segredos do mundo. E quem não quer conhecer os segredos do mundo?

Seus pais e outros parentes sempre lhe encheram de objetos da Turma da Mônica (o vídeo caseiro de sua festinha de um ano não lhe deixaria mentir). Percebendo que ela correspondia ao estímulo, começaram a lhe dar gibis, mesmo que ela apenas pudesse apreciar as imagens sozinha. Inconformada, não dava sossego aos adultos, questionando sobre os balões de fala e, quando se via sem a tradução dos mais velhos, inventava seus próprios diálogos.

Um dia, seu avô descobriu uma coleção de livros, a ser vendida semanalmente, com histórias infantis. Cada um deles vinha com dois contos e uma fita cassete, contendo as narrações em uma voz muito agradável. Sua netinha ficaria muito feliz, sem dúvidas, e também daria um pouco de sossego aos adultos, já que ela poderia ficar ouvindo as histórias por horas, enquanto os afazeres diários eram cumpridos por eles.

Toda semana era uma festa, ver o avô chegar com aquele pedaço de felicidade em forma de papel, plástico e fita! E lá ia ela, por horas escutando as narrações e acompanhando tudo, atentamente, no livro, percorrendo com o dedinho cada letra, cada palavra, e nunca se esquecendo de virar a página, sempre que o barulho anunciava.

Chegou dezembro daquele ano de 1996 e os pais da menina foram às compras com ela.

“Olha, mamãe! Feliz Natal!”

Os adultos se olharam. Como assim, “Feliz Natal”? Bom, a cidade está toda enfeitada, ela deve ter deduzido a mensagem na entrada do mercado. Afinal, não foram poucas as vezes de que ela foi informada da mesma frase em faixas por aí.

“Olha, ali está escrito biscoito!”, “Ali está escrito bebidas!”

Não é possível! A menina está lendo!

“Minha filha, o que está está escrito nessa embalagem? E nessa? E nessa outra? E aqui, o que você lê?”

E foi assim que, aos quatro anos de idade, me pegaram lendo no supermercado. Já não haviam barreiras para mim e todos os segredos do mundo poderiam ser desvendados, desde que se encontrassem nos 26 símbolos do alfabeto.

Desde esse dia, nunca mais ninguém me viu desacompanhada de um livro!

Criança sentada em um sofá, com as pernas cruzadas e com um gibi aberto nas mãos.
Fita cassete com a capa correspondente ao livro da coleção Contos Sonoros editado pela DelPrado, contendo as histórias de Cinderela e Simbad, O Marujo. Além dos títulos das histórias, há, na capa, o desenho de uma ave e uma cobra enormes lutando, enquanto Simbad foge da cena.
Fita cassete com a capa de um dos livros da coleção Contos Sonoros, editado pela DelPrado, em 1996, com a qual eu aprendi a ler. (Imagem retirada da internet, já não tenho mais os livros)

5 comentários em “Como se faz uma leitora?

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: