Resenha – Pequena coreografia do adeus

Em abril desse ano, fui convidada pela Companhia das Letras, através da parceria, para participar de uma conversa virtual com Aline Bei sobre seu novo livro. Para tanto, eu teria que lê-lo e peguei a cópia digital disponibilizada pela editora na NetGalley. Eu, que ainda não conhecia o trabalho da autora, fui completamente tragada pelo seu romance-poesia, por seus versos simbólicos e sua linguagem delicada e, ao mesmo tempo, franca. Pequena coreografia do adeus é uma história de trauma e abandono, com pitadas de esperança, que deveria ser lida aos poucos, mas que devorei em um dia.

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Pequena coreografia do adeus conta a história de Júlia Terra, filha única de uma mãe que não sabe agir além da violência e de um pai que se omite e se ausenta de sua vida após o divórcio. A menina cresce com um peso imenso sobre si e sem ter com quem dividir. Apenas seu diário lhe serve de amigo, para quem conta seus segredos, onde transborda suas emoções e faz seus primeiros exercícios de criatividade e, porque não dizer, de fuga.

Júlia compara constantemente sua vida com a de outras meninas, e sua mãe com as outras mães, projetando nelas uma imagem idealizada do que deseja para si, do que lhe faz tanta falta. Sem abertura para se expressar, aprende a violência como linguagem principal, reiniciando um ciclo difícil de romper e levantando muralhas ao redor de si.

e eu?

como recolheria meus cacos se eles são invisíveis?

Esse é um livro que, apesar de duro, é poético, muito por causa da escrita de Aline, que compõe sua história em versos e com vários simbolismos e frases impactantes. Ao mesmo tempo que nenhum personagem é bom, pode-se dizer que todos são muito humanos e que não há vilões: há pessoas machucadas e que não conseguem sair das jaulas emocionais e comportamentais em que se veem, gerando grande empatia por parte de quem lê.

Também é uma leitura que questiona aquele padrão de família de comercial de margarina, onde tudo é perfeito e lindo e todos sorriem o tempo todo, sem problemas para se preocuparem. Há famílias e famílias, algumas mais tranquilas, outras mais desajustadas, mas todas existem e merecem atenção e não terem olhares desviados de si. Afinal, de onde vêm as barreiras, os traumas e muitos transtornos em pessoas tão jovens, senão das dores da infância?

meu pai disse que tinha o direito sim, todos, e mandou a minha mãe para o inferno

mas na verdade quem foi para o inferno, pai?

E o que fazer quando não se sabe que precisa de ajuda? Aline Bei nos mostra um caminho: a escrita. Muitos de nós tivemos diários na infância, em especial as meninas, que são mais estimuladas a isso. Neles, despejamos nossas dores, expressamos nossos sentimentos, materializamos nossos anseios, formulamos nossos sonhos. E exercitamos o nosso lado criativo. A escrita tem um poder curador, um poder de cicatrização único, difícil de ser explicado, mas fácil de ser sentido. E com Júlia, acompanhamos os primeiros passos de uma espécie de libertação, uma conscientização, que, quem sabe, servirá também para nós.

Livro "Pequena coreografia do adeus" aberta na folha de rosto, com o autógrafo da autora, onde se lê: "Boa leitura. Com amor, Aline Bei (outono/21)". Há folhas secas ao redor do livro.

Pequena coreografia do adeus foi um livro que me envolveu de forma inexplicável e que indico para todos que estiverem dispostos a abrir o coração. A obra está disponível em versão física, digital e em audiobook, narrado pela própria Aline Bei, com sua voz doce e dotada de um magnetismo singular.

2 comentários em “Resenha – Pequena coreografia do adeus

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  1. Adorei a resenha. Já estava interessada em ler este livro, pois li O Peso do Pássaro Morto e amei a escrita da Aline Bei e esta resenha só me fez ter certeza que este é um livro que vou gostar de conhecer. Muito tocante! ♥

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu ainda não li O Peso do Pássaro Morto e só fiquei com mais vontade depois de ler Pequena coreografia do adeus e de ouvir Aline Bei falando. Acredito que, se você já gostou da escrita dela no primeiro livro, vai adorar esse segundo, é maravilhosos! ♥

      Curtido por 1 pessoa

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