Resenha – Só os animais salvam

Oi pessoal, tudo bem com vocês?

Hoje quero falar sobre um livro de contos/fábulas que, como se diz, “desgraçou” minha cabeça, Só os animais salvam, da autora Ceridwen Dovey, editora Darkside, edição de 2017 (você pode encontrá-lo na Amazon). Mas, antes de falar sobre a obra em si, gostaria de abordar os motivos que me levaram a lê-la.

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A editora Darkside tem uma linha dedicada a autoras mulheres, a Darklove, a qual esse livro pertence. “Mas por que uma linha apenas para mulheres autoras?”, você pode estar se perguntando, e eu te devolvo com outra pergunta: quantos livros você já leu em sua vida que foram escritos por mulheres e quantos foram escritos por homens?

Sabemos que qualidade não é algo que está ligado ao gênero da pessoa, mas também não podemos esquecer de que ainda vivemos em uma sociedade que prioriza o masculino, com movimentos muito recentes de mudanças. Basta lembrar um pouco da nossa história e veremos que há pouco tempo a mulher conquistou o direito ao voto, ao trabalho formal remunerado e ainda não de forma plena. Existem países ainda hoje em que as mulheres precisam escolher entre se casar e ter uma carreira, ou países em que as crianças mulheres são rejeitadas pelas famílias porque são os homens que, tradicionalmente, cuidam de seus pais na velhice. Exitem países em que meninas são obrigadas a se casar com homens muito mais velhos por sua própria família. Em outros lugares, onde essa realidade parece ser distante, ainda temos a disparidade entre os salários de um homem e uma mulher para exercer a mesma função no mesmo ambiente, ou ainda, o medo de andar na rua sozinha, voltando do trabalho ou da balada, com roupas curtas ou cobrindo todo o corpo, e ser atacada e culpabilizada pelo ato do qual seria vítima.

Mas o que isso tem a ver com a literatura? Não faz muito tempo que mulheres (ainda mais aqueles de menor poder aquisitivo) tiveram acesso a educação de qualidade, já que, acreditava-se, a mulher só necessita aprender o suficiente para os cuidados com a casa e a família. Assim, há poucas mulheres que conseguiram ser publicadas e reconhecidas, a maioria tardiamente. Talvez algumas pessoas não saibam, mas a maior escritora do mundo atualmente, J. K. Rowling, autora de Harry Potter, apenas conseguiu publicar e vender seus livros por ter abreviado o nome, não sendo identificada como mulher logo na capa de sua obra. Para aqueles que se interessam pela discussão, fica a indicação do canal da Louie Ponto, formada em Letras, e que trata constantemente de assuntos como esse. Em especial, recomendo o vídeo em que ela fala sobre os livros da Darklove, onde descobri a preciosidade da qual falaremos agora.

Resenha - Só os Animais Salvam

O livro é composto por 10 contos, cada um narrado pela perspectiva de um animal diferente, em um conflito humano diferente ocorrido no último século. Conflitos humanos? Sim, estamos falando de animais durante guerras, das maiores e mais conhecidas, como a Primeira Guerra Mundial, às mais desconhecidas ou regionais, como a de Moçambique, em 1987. No início de cada conto, vemos o local em que a história se passa e o ano em que o animal morreu. Em seguida, é uma mistura de sentimentos e uma sensação de que algo mudou em sua mente.

Resenha - Só os Animais Salvam

A autora utiliza várias referências em sua obra, muitas vezes citando personas e livros famosos, como O guia do mochileiro das galáxias, Franz Kafka, Virginia Woolf entre outro. Falando sobre a autora, Ceridwen Dovey é uma antropóloga sul-africana que atualmente mora na Austrália. Esse é seu segundo livro publicado, sendo o primeiro, Blood Kin.

Olhando o livro pela perspectiva mais racional, podemos apreciar um relato bastante fundamentado e detalhado do uso de animais nas guerras. A relação dos humanos com os animais sempre aconteceu e, desde muito, aprendemos a utiliza-los a nosso favor, seja para companhia, seja para alimentação, seja para serviços. Quando digo “a nosso favor” não estou colocando juízo de valor, até porque irei falar da parte emocional do livro mais adiante. Assim, na obra, conseguimos observar o uso de animais para a guarda, para descobrir bombas, para explorar o espaço, para descobrir mais sobre nós mesmo. Nesse aspecto, o livro é bastante instrutivo, principalmente para aqueles que ainda não tiveram contato com o assunto.

Mas, para mim, o que marcou foi o aspecto emocional. A relação dos animais com os homens, no aspecto da confiança que eles nos devotam, ou o medo que sentem de nós, é muito marcante. Temos as relações dos homens (e aqui, por homens, quero dizer pessoas) que amam seus animais e são amados por eles, aquele amor que não acaba, aquele amor superficial que satisfaz por algum tempo e depois causa enfado. Temos as relações de autoridade, em que o homem é o dono e mestre do animal, em que o animal se sujeita, por vontade ou por força, ao homem, cumprindo-lhe as ordens e os caprichos. Temos a traição e a dor sentida pelo animal, quando essas relações são rompidas.

O livro nos faz enxergar um pouco mais a nossa relação com os animais, mas também entre os de nossa própria espécie. Constantemente nos vemos no animal que conta a história. Será mesmo o animal ou serei eu vivendo aquele momento? Será o animal ou será aquela pessoa que passou por mim na calçada há poucos momentos. Será o animal ou será meu amigo, meu parente? A autora, antropóloga, descreve muitos aspectos da nossa sociedade, revestido da percepção animal. Aborda temas atuais e de extrema importância: a solidão, a confiança, o medo, a família, a sexualidade não compreendida, a manipulação.

É um livro primoroso, bastante tenso e pesado, mas maravilhoso! Recomendo ler um conto de cada vez, digeri-lo, analisá-lo, analisar-se. Não se assuste se, depois de um dos contos, você não tiver coragem de pular para o próximo e sentir necessidade de um momento de introspecção. É uma experiência incrível e que eu incentivo!

Em seguida, para deixar um gostinho de quero mais, vou falar um pouco de dois dos contos. Foi uma decisão difícil, já que cada conta é uma experiência singular e maravilhosa, mas necessária, já que não conseguiria abordar todos nessa postagem.

Alma de Gata

Sem dúvida, foi o conto que mais me marcou, talvez pela minha paixão exacerbada pela espécie. É o segundo conto do livro e trata de uma gata vivendo nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na França. A gata nos conta um pouco sobre a vida que leva com aqueles soldados e da vida que levava com sua dona, longe dos conflitos. Esse conto traz algumas reflexões sobre como alguns aspectos da sexualidade são tratados na sociedade e como se manifestam, o que me chamou bastante a atenção. Depois de ler este conto, levei algum tempo para conseguir retomar a leitura, pois precisei de algum tempo para digerir a história e me desligar do conto. Foi uma experiência bastante intensa.

Alma de Elefante

Um conto que trata sobre família. Não sei se vocês sabem, mas existem estudos que demonstram a capacidade que algumas espécies tem de sofrer com a morte de membros de seu grupo. Um dos animais estudados é o elefante, também conhecido pelo senso de união, em especial entre as fêmeas. Esse conto traz duas irmãs em meio a conflitos nas terras de Moçambique. Conta-se desde seu nascimento até a madureza, quando morrem, narrando a força de um grupo, a empatia entre os membros e o altruísmo diante de várias dificuldades pelas quais o grupo passa. Outro conto do qual foi difícil me desligar.

Já dei muitos spoilers, se falar mais, acabarei por contar o livro todo e eu quero, sinceramente, que mais pessoas procurem essa obra para apreciar.

Se você já leu esse livro, comente aqui qual foi o conto que mais te marcou! Se você sabe de mais autoras maravilhosas, por favor, nos indique aqui nos comentários! Se você tem alguma sugestão, crítica, questionamentos, deixe também nos comentários!

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Até a próxima!

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