Tina – Respeito

Quando vi que seria lançada uma HQ da Tina pelo selo Graphic MSP e ainda mais com esse subtítulo, já fiquei interessada. Mas depois que li… MEU DEUS! Senti-me na obrigação de resenhar essa obra tão fabulosa e necessária, ainda mais nos dias de hoje. Tina – Respeito foi produzida por Fefê Torquato para o selo Graphic MSP, editada pela Panini Comics em 2019, contando com 96 páginas, lançada recentemente na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. É o 24º título do selo. (Adquirindo seu exemplar pelo nosso link na Amazon, você ajuda o blog a crescer!)

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Tina é uma jornalista de 22 anos recém-formada que está iniciando a sua vida adulta. Mora sozinha, janta miojo, dorme entre blocos de anotações espalhados pelo quarto e escreve sua própria newsletter. A moça consegue uma oportunidade e tanto quando é contratada para uma respeitada redação, onde poderá trabalhar com grandes nomes do jornalismo. É então que ela vai descobrir que os desafios profissionais de uma mulher são sempre muito mais pessoais.

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O traço leve e as cores delicadas da aquarela e do lápis de cor de Fefê Torquato trazem leveza para uma HQ que trata de um tema tão angustiante para nós, mulheres: o assédio. Algumas vezes, a autora o apresenta de forma bastante enfática, em outros momentos, de forma bastante sutil, mas nós percebemos. Ele está presente: nas cantadas que Tina recebe na rua; no cara que senta ao seu lado no ônibus, mesmo com todos os outros bancos vazios; no convite da amiga para dormir em sua casa após um happy hour, pois o caminho não é seguro para moças sozinhas; no relato de uma vez em que alguém se sentiu perseguida por um carro na rua; nas piadas machistas no ambiente de trabalho; nos comentários inadequados do garçom; e, o foco desta história, na proposta indecente do chefe. Ficou maçante para você ler todos esses exemplos neste parágrafo? É exaustivo passar por isso todos os dias! Existem muitos outros exemplos, dentro e fora da HQ, mas vamos ficar apenas com estas.

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Tina e todas as personagens femininas da história enfrentam o medo embutido no fato de ser mulher. E se respondermos? E se dissermos “não”? Que tipo de consequências isso pode trazer? E se eu gritar? E seu correr? Alguém irá acudir? Nossa heroína discute com a mãe sobre seus conflitos e seu desejo de desistir. Quantas de nós não sentimos o mesmo e quantas de nós não desistimos, pois, como Tina diz, “é mais simples desistir […], não mais fácil, mas mais simples. Agir da forma que o mundo espera que você aja”.

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Além do machismo absurdo e do assédio, Fefê Torquato toca ainda em outros temas, ainda que de forma secundária, mas mostrando que todas as pautas são importantes e merecem representatividade: há as piadas machistas com a moça lésbica, trazendo o assunto da lesbofobia, a loja da Pipa dedicada a roupas plus size, denunciando a invisibilidade e o preconceito sofrido pelas pessoas que não correspondem aos padrões estéticos da sociedade, e a presença constante de mulheres negras, com direito a um diálogo sutil entre Tina, sua nova amiga e a mãe dela, mas que para bom entendedor…

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Apesar de toda essa violência, muitas vezes velada, que nós, mulheres, sofremos e que a autora denuncia em suas páginas, há também a boa notícia: a sororidade entre mulheres vem aumentando e isso está muito bem representado na HQ. Tina e suas amigas se unem para protegerem umas às outras de possíveis perigos, jornalistas mulheres se ajudam e tentam mudar uma realidade tão cruel com seu trabalho, e a mãe da Tina, que primor! Que diálogo!

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Esse é um assunto que mexe muito comigo. Quem me acompanha aqui no blog já deve ter percebido que de vez em quando saem alguns textos vertendo às causas feministas. Acreditem, estou me segurando bastante para não me estender muito e problematizar demais! Afinal, recentemente escutei que eu problematizo muito e que isso poderia fazer com que as pessoas me vissem como chata e eu acabasse isolada. Sabe, isso é verdade até certo ponto. Mas eu acredito que isso esteja fortemente atrelado à forma como as pessoas se acostumaram a viver suas vidas, naturalizando preconceitos, machismos e violências. Mesmo as pessoas que sofreram com isso, aprenderam que era algo normal a ser feito e passaram a reproduzir o padrão. Acredito firmemente que seja o papel de quem vê que isso não é bom quebrar com esses padrões impostos pela nossa sociedade.

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Na primeira história de Tina para o selo Graphic MSP, foi abordado o tema assédio, relacionado ao subtítulo “respeito”, mas, após a leitura, fiquei pensando em quantas outras formas somos desrespeitadas todos os dias pelo simples fato de sermos mulheres, embora o assédio seja um dos mais graves. Podemos pensar no quanto somos subestimadas, muitas vezes, nos campos profissional e pessoal, quantas vagas de emprego perdemos para aquele rapaz que nem era tão qualificado assim, quantos créditos perdemos para o colega de trabalho que fez o mesmo ou às vezes menos que nós, quantas ideias que tivemos e que não foram ouvidas e depois foram repetidas por uma boca masculina e se tornaram brilhantes de repente. Quantas vezes somos tratadas de maneira diferente só por sermos mulheres. Se nos casamos, devemos nos tornar a Amélia de Mário Lago, ter filhos logo. Viramos um útero ambulante! Os filhos nascem e vem as cobranças sobre os cuidados com eles. Se não nos casamos, seremos incompletas. Isso porque não estou entrando nas especificidades que sofrem mulheres negras, lésbicas, bissexuais, trans, enfim…

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Ainda não sabemos se a HQ de Tina terá uma sequência e qual seria sua temática, mas a primeira história é absolutamente necessária e daria para discuti-la quadro a quadro. Uma obra de altíssima qualidade que acolhe e fortalece as mulheres enquanto esclarece os homens (que realmente queiram nos ouvir). Dessa vez, eu não apenas recomendo a como peço que leiam esse quadrinho. Para finalizar, deixarei a mensagem de Jout Jout (vlogueira, escritora e jornalista) na quarta capa da revista, além de recomendar a resenha que as Minas Nerds escreveram, apresentando dados sobre assédio no trabalho e tudo o mais, está incrível! E se você, em algum momento, ainda achar que é mimimi, pergunte-se: se fosse com um homem, as coisas seriam do mesmo jeito?

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Boas leituras!

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