Memórias Póstumas de Brás Cubas

O primeiro contato que tive com Machado de Assis foi através das aulas de literatura do Ensino Médio e me lembro de já ter gostado do autor só pela descrição do estilo dela pela minha professora. Irônico, sarcástico, criticando a sociedade, tudo o que eu gosto concentrado em letras e papeis. Lembro também que ela passou para a turma um filme baseado em um dos romances do grande escritor. Saindo daquela aula, passei em um sebo e comprei meu exemplar. Trata-se da primeira obra realista brasileira: Memórias Póstumas de Brás Cubas, do grande Machado de Assis, publicada no início da década de 1880, inicialmente como folhetim na Revista Brasileira, e, no ano seguinte, como livro, pela então Tipografia Nacional. (Adquirindo seu exemplar pelo nosso link na Amazon ou na Livraria da Travessa, você ajuda o blog a crescer!)

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Brás Cubas é o personagem principal da história e, como o título sugere, narra suas memórias após sua morte. Nascera com os privilégios de uma família burguesa, dona de algumas terras e escravos, e de uma sociedade patriarcal. Desde cedo, apresenta os comportamentos típicos de sua classe, utilizando-se dos escravos como melhor lhe aprouvesse, sem muita consideração. Abeirando-se da idade adulta, apaixona-se por Marcela, uma cortesã com quem gasta grandes recursos de sua família, motivo que leva seu pai a mandá-lo para Coimbra a estudar Direito. Forma-se e retorna ao Rio de Janeiro por ocasião da morte de sua mãe, quando conhece seu segundo e grande amor, Virgília, que perde para Lobo Neves, junto com sua candidatura a deputado. Os fatos vão se sucedendo até que culminam na morte (descrita já no início do livro) do personagem, em um capítulo de não realizações, em que Brás Cubas faz uma espécie de balanço de sua vida, indicando todas as coisas em que fracassara e o suposto sucesso de não ter passado a miséria de sua vida adiante por não ter tido filhos.

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A primeira coisa que se nota no romance que se diferencia dos demais de sua época é a presença de uma narrador que já é morto. Tem-se uma dedicatória ao verme que lhe corroeu as carnes do cadáver, em analogia às dedicatórias comuns às obras do período romântico, contemporâneo à Machado de Assis. Imagine, caro leitor, o susto dos leitores da Revista Brasileira ao se deparar com tal dedicatória! Em seguida, tem-se a narrativa não linear. Brás Cubas inicia suas memórias pelos seus funerais e os eventos que precederam sua morte para falar de seu nascimento apenas no capítulo 9. Fico pensando em quando a história foi lançada, por partes, e cada edição da Revista Brasileira trazendo trechos aparentemente desconexos de uma história iniciada pelo fim, o que não teriam pensado os leitores!

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Nesta obra, Machado de Assis já critica diversos aspectos da sociedade em que vivia. Temos um jovem rico, cuja família possui algumas terras e escravos e, que por sua posição social, sente-se no direito de judiar de outros, justificando suas ações com argumentos que não fazem sentido para os leitores, representando muito bem a maioria das pessoas daquela classe do Rio de Janeiro dos idos de 1880. Brás Cubas vive de seus privilégios de homem rico, não se esforça verdadeiramente para ser bem-sucedido em nada porque não precisa, mesmo falhando, continua a se servir de seus privilégios. As relações de amor e dinheiro que se misturam o tempo todo estão representados no “romance” entre o protagonista e Marcela, que lhe amou durante “quinze meses e onze contos de reis”. O pai de Brás Cubas fez com ele o que muitos faziam na época: o rapaz começou a dar trabalho? Mande estudar em Portugal! Claro, se tiver dinheiro.

As relações entre as classes sociais também são trabalhadas. Um escravo que Brás Cubas judiava durante a infância é alforriado e, anos mais tarde, é encontrado pelo próprio protagonista batendo em um escravo fugitivo. Ao ver tal cena, Brás Cubas pede que o ex-escravo pare com tal ato, no que é prontamente atendido, mostrando que, embora alforriado, as relações de autoridade e subserviência permanecem, ainda que de forma implícita. O último capítulo é o mais direto, em minha opinião, pois trata de todos os objetivos a serem atingidos de acordo com a sociedade da época e que não o foram pelo personagem: não casou, não teve filhos, não conclui seu projeto, fora deputado medíocre. Após a leitura do livro, ficamos a pensar: será que mudamos muito nesses quase 140 anos?

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Boas leituras!

3 comentários em “Memórias Póstumas de Brás Cubas

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