Resenha – As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Esta resenha é sobre um livro que me conquistou e que provavelmente vai povoar minha mente com seus personagens por muito tempo. Um candidato a melhor do ano e só estamos em fevereiro. Com assuntos muito caros ao meu coração, hoje trago o aclamado romance As Alegrias da Maternidade, escrito por Buchi Emecheta, lançado em 2018 pela Dublinense aqui no Brasil e que era uma das promessas para 2020 que eu fiz. O livro também foi enviado aos assinantes da TAG Curadoria em outubro de 2017, indicado por Chimamanda Ngozi Adichie. (Adquiria seu exemplar pelos nossos links: Amazon ou Livraria da Travessa)

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Livro As Alegrias da Maternidade, da escritora nigeriana Buchi Emecheta.

Nnu Ego é descendente de grandes líderes igbos, da comunidade de Ibuza, na Nigéria. Desde sempre, acalenta o sonho de ser mãe, pois só assim seria uma mulher completa, e se tivesse muitos filhos, eles a amparariam na velhice, conforme os costumes. Seu pai arranja seu primeiro casamento, mas a moça não consegue engravidar. Seu marido passa a maltratá-la e arruma uma segunda esposa, que logo tem um filho. Após algumas confusões, Nnu Ego é comprada de volta pelo pai e, em seguida, é enviada ao segundo marido, que deixou o ambiente agrícola de Ibuza para trabalhar para os brancos na grande e urbana Lagos. Lá, a protagonista vai experienciar o choque de culturas provocado pelo colonialismo inglês, as mudanças nos seus costumes ancestrais, as dificuldades de uma vida incerta, os desmandos de uma sociedade patriarcal e as “alegrias” da maternidade.

Dedicatória do livro As Alegrias da Maternidade: Para todas as mães.

O título do livro é bastante sarcástico, já que não se trata aqui de enaltecer a maternidade como um meio de se atingir a plenitude, como é vendido até hoje para todas as mulheres. A todo momento, nos deparamos com os absurdos do patriarcado: a mulher nada mais é do que uma propriedade, ora do pai, ora do marido, ora dos filhos. Quando nasce uma mulher, pensa-se apenas no dote que será pago por ela e que será utilizado na educação dos filhos homens (mulher não precisa ir à escola). E se, ao se casar, a moça for virgem, existe uma espécie de recompensa enviada à família na forma de vinho de palma.

Cada visitante que chegava espiava o interior dos barris de vinho de palma e gritava: “Ah, os barris estão muito cheios. Nnu Ego não nos envergonhou […]”

Página 45

A mulher existe apenas para dar filhos ao marido, que pode ter quantas esposas achar necessário e conseguir sustentar, podendo inclusive herdar esposas de outros membros da família. Isso mesmo, herdar! Ao dar à luz filhos homens, a mulher garante a linhagem do marido e torna-se completa aos olhos da sociedade. À mulher cabe: colocar os filhos e o marido acima de qualquer coisa, aguentar os acessos de violência, os vícios, o abandono, a ingratidão e tudo o que aprouver ao homem, pois ela é dele uma propriedade.

“Depois que eu tiver descansado, preciso ir visitar aquela boa mulher em Ibuza. Ela deve estar ansiosa por um homem. Para uma mulher, passar cinco anos sem homem… Meu irmão nunca me perdoará.”

Página 258

E na Lagos dos anos 1920 e 1930, onde a história se passa majoritariamente, tudo fica ainda mais difícil com a presença dos brancos, impondo sua cultura nem um pouco avançada. A penúria, a inferiorização das etnias locais e a assimilação de um papel feminino nada interessante só fazem piorar a vida das mulheres nigerianas. Se antes elas contribuíam nas lavouras quando os filhos não necessitavam mais de seu seio, agora é seu dever permanecer em casa, ainda que os proventos do marido não sejam o suficiente ou que ele gaste demais com seus vícios.

Nnu Ego se deu conta de que parte do orgulho da maternidade era ter um aspecto um pouco fora de moda e poder declarar alegremente: “Não posso comprar uma roupa nova porque estou amamentando meu filho, por isso, entendam, não posso ir a lugar nenhum vender coisa alguma.”

Página 116

Existem muitos pontos que podem ser discutidos sobre esse livro intrigante, mas vamos ficar apenas com alguns: É interessante que, em alguns textos que li por aí, a mãe de Nnu Ego, Ona, é percebida como uma mulher além de seu tempo, alguém que não aceitava imposições. Porém, eu tive uma leitura diferente. Para mim, apesar de ser dona de uma personalidade marcante, Ona era tão refém de sua cultura patriarcal quanto as outras. Ela não se casou com o amante, não porque não queria, mas porque seu pai não lhe permitia, era sua propriedade.

“Meu pai quer um filho e você tem muitos filhos. Mas você ainda não tem nenhuma filha. Já que meu pai não aceitará ceder-me a você por preço nenhum, se eu tiver um filho, ele pertencerá a meu pai, mas, se for uma menina, ela será sua. É o melhor que posso fazer por vocês dois.”

Página 35

Nnu Ego é uma mulher incrível, forte, batalhadora, criativa, independente e que faz das tripas o coração, mas em nenhum momento qualquer dos personagens reconhece isso, nem mesmo ela, já que todos esperam dela aquele padrão machista de mulher, brilhantemente demonstrado pela autora ao se referir a ela nos títulos dos capítulos apenas por “mãe“. Quantas mulheres incríveis nós deixamos não percebemos ou não nos percebemos porque acreditamos em padrões opressores que estabeleceram para nós?

Abertura de capítulo do livro As Alegrias da Maternidade: A vida da mãe no começo.

É inacreditável como a população nativa do país é tratada como propriedade dos invasores, com toda a carga de preconceito, aculturação e desrespeito a individualidade e à liberdade do outro! É desconcertante e revoltante, ao mesmo tempo que ajuda a compreender muito do que ainda acontece nos dias de hoje.

“Mas…”, protestou Nnu Ego, “meu pai libertou seus escravos porque o branco diz que a escravidão é ilegal. Só que os nossos maridos parecem escravos, não acha?”

Página 73

Importante dizer que a autora viveu na pele muito do que é colocado em sua obra. Nigeriana, casou-se aos 16 anos e foi morar em Londres com o marido abusivo, com quem teve 5 filhos. Por insistir em entrar para a universidade, foi abandonada pelo esposo e ainda teve a paternidade de seus filhos negada. Sozinha em terras estranhas, formou-se em Sociologia e criou todas as crianças. Porém, mais tarde, uma de suas filhas resolveu ir morar com o pai, o que lhe partiu o coração. Foi aí que nasceu o romance que hoje resenhamos, de muita dor, mas de uma beleza desconcertante.

Buchi Emecheta, autora nigeriana que escreveu As Alegrias da Maternidade.
Buchi Emecheta (Foto retirada do site da TAG)

Esse é um livro que deveria ser lido por todos e todas, com um enredo angustiante, porém impossível de largar. A complexidade da narrativa e das personagens vai aumentando, assim como é mesmo a vida, dando mais ares de realidade ao texto. Acompanhamos o desenvolvimento e o amadurecimento de uma protagonista tão maravilhosa e tão injustiçada, com um desfecho de tirar o fôlego, ao mesmo tempo em que refletimos sobre assuntos seríssimos e urgentes.

“Nnaife é o chefe de nossa família. Eu sou propriedade dele, assim como todos nós somos propriedade de Deus que está no céu. Portanto, mesmo que eu pague as taxas escolares, sou propriedade de Nnaife. Sendo assim, em outras palavras, é ele que paga.”

Página 307

E encerro esta resenha dizendo que é necessário que tenhamos cuidado para não achar que todas as realidades são iguais, porque não são. A nossa realidade no Brasil não é a mesma de uma mulher na Nigéria, nem a da Nigéria de Nnu Ego é a mesma de hoje. Nem mesmo no Brasil temos realidades uniformes. Porém, existem temas que são sim possíveis de serem trazidos para a nossa realidade, respeitadas as proporções. Ou você, mulher, nunca sentiu como se tudo o que importasse em você fosse apenas seu útero? Eu já senti.

Adquira As Alegrias da Maternidade

Lembrando que se você se interessou pelo livro As Alegrias da Maternidade, você pode comprá-lo pelos nossos links da Amazon ou da Livraria da Travessa sem pagar nada a mais e ainda ajudar o blog com a comissão que ganhamos por vendas nessas lojas. Aproveito para recomendar também a resenha das Valquírias sobre esse livro, que está bem completa e eu gostei muito, pra você que já leu o livro ou não se importa com spoilers.

Boas leituras!

4 comentários em “Resenha – As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

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